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Curso inédito no SUAS sobre escuta como ferramenta de traablho

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Escutatória no SUAS – Turma 2 já está com inscrições abertas
As inscrições para a Turma 2 do Escutatória no SUAS estão abertas e eu fico muito feliz em compartilhar isso com vocês. Depois dos resultados da primeira turma e de convites para levar o curso também ao formato presencial, tenho ainda mais certeza de que essa proposta é relevante para o nosso campo.
O curso sobre Escuta como ferramenta de trabalho no SUAS parte de algumas perguntas:  Qual é o trabalho das(os) profissionais da assistência social? Quais são as ferramentas para realizar os atendimentos e as atividades em grupo? Como as(os) profissionais podem usar a escuta como ferramenta técnica e ética no trabalho social?
É comum vermos discussões sobre o que fazer, mas quase nada sobre como escutamos para intervir de forma efetiva e ética. Inspirada na crônica Escutatória, de Rubem Alves, e em minha trajetória com o Blog Psicologia no SUAS, eu criei este curso para aprimorar a habilidade de escuta. Escuta profissional não é ser boazinha, humana ou algo que já vem consolidado com o diploma, mesmo para nós, psis. Ela precisa ser aprimorada, aprendida e contextualizada com o campo de atuação.
O objetivo não é apenas humanizar o trabalho, mas viabilizar intervenções mais assertivas, seguras e protetivas para as pessoas, para as famílias e para as(os) profissionais. Aposto que a escuta não precisa do adjetivo “qualificada”, já que é o próprio ato de escutar com método que qualifica um trabalho ético, político e com fundamento técnico-científico. Portanto, o curso busca transformar a percepção sobre o fazer profissional, mudando como cada trabalhadora(r) se relaciona com a equipe e como atua junto às(aos) usuárias(os), famílias e territórios atendidos.
O curso é voltado a psicólogas(os), assistentes sociais, advogadas(os), gestoras(es) e demais profissionais de nível superior que atuam no SUAS. É online, ao vivo, com aulas, material de apoio e um encontro pós curso para conversarmos sobre a aplicação prática no dia a dia.
Formato do curso
Modalidade
  • Curso 100% online, com aulas ao vivo pelo Google Meet
  • Carga horária de 8 horas, com certificado
  • Vagas limitadas, para preservar a qualidade da escuta em grupo
Cronograma das aulas
  • Abertura — 19/10, das 19h às 20h30: boas-vindas, acolhimento e escuta das demandas das participantes
  • Aula 1 — 20/10, das 19h às 21h30: Escutatória no SUAS, aprendendo a escutar
  • Aula 2 — 21/10, das 19h às 22h: escuta como ferramenta de atuação, teoria e prática
O que está incluso
  • Guia prático da Escutatória no SUAS, com fichas em PDF
  • Curadoria de filmes, músicas e bibliografia sobre escuta
  • Grupo no WhatsApp para interação entre cursistas
  • Acesso às gravações das aulas por até 6 meses
  • Encontro ao vivo com os cursistas 60 dias após o curso, para discutir a aplicação prática na rotina de trabalho
 GARANTA SUA VAGA CLICANDO AQUI
Se você quer conhecer a trajetória e os fundamentos dessa proposta, deixo abaixo alguns textos que escrevi e que ajudam a aprofundar essas ideias.
Para saber mais:
 
Carta aberta às/aos cursistas do Escutatória no SUAS – Primeira Turma

Agradecimentos e considerações

Findamos essa pequena grande jornada do meu primeiro curso online! Que responsabilidade! Sim, eu morria de medo de oferecer um curso em que eu me traísse ou com o qual eu não me sentisse extremamente feliz. Lutei contra isso por vários anos e eis que consegui lançar o curso com o jeitinho que imaginei (tinha que ser uma experência, para quem apostou na aprendizagem e para mim!) Talvez excessivamente cheio de detalhes, talvez excessivamente cheio de referências, mas o certo é que concluí o curso com a certeza de que ele foi o melhor que eu podia ofertar neste momento. Reconheço que não adiantava esperar mais alguns anos para inaugurá-lo. Eu não o melhoraria sozinha. Eu precisava da primeira turma para sossegar minhas ideias e para ir entendendo o que funciona e o que não favorece a escuta.

Eu nunca vou conseguir demonstrar o tamanho da minha gratidão a vocês colegas do SUAS que apostaram nessa jornada comigo na primeira turma e me permitiram aprender enquanto ensinava. Para escutar os outros, temos que apostar na arte de nos escutar, e nisso vocês me ajudaram com maestria.

Prezei por uma turma pequena, e foi um acerto, porque a turma pequena nos aproxima, nos possibilita mais espaço para diálogos sem pressa, nos permite se jogar na experiência, dar as caras, literalmente. Numa turma pequena, conseguimos mais de 80% de câmeras abertas num curso online. Isso é maravilhoso! Num contexto de excesso de informações e de cursos rápidos e diretivos, colocar-se em experiência, hoje em dia, é ter coragem e, ao mesmo tempo, colocar-se realmente ativo no processo de aprendizagem. Não é fácil, eu reconheço. A vida exige várias tarefas ao mesmo tempo e a gente, muitas vezes, não é autorizado a parar. Parar para escutar.

Minha questão central era ofertar um curso que operasse pela primazia da experiência. Percebo que quem se permitiu, ou foi autorizada pelo cotidiano, pôde vivenciar a ESCUTA como um divisor na trajetória profissional no SUAS, como eu escutei de vocês que concluíram a experiência ao vivo. Para quem não conseguiu embarcar, ou embarcou e não pôde permanecer no orgânico do ao vivo e da tarefa, deixo meus votos para que possam acessar o material, demasiadamente pensado para fazer parte, ao modo de cada uma e cada um, da jornada de experiência de se tornar uma/um escutadora/r.

Jornada que está longe de se encerrar no Escutatória. Pelo contrário, ela inaugura a exigência de que a/o trabalhadora/r do SUAS configure a escuta como seu dispositivo de trabalho técnico, ético e político, e tomem as rédeas do seu trabalho profissional num processo de corresponsabilização e controle do próprio trabalho, na direção da transformação política e da promoção de saúde ético-política, como defendem Sawaia e Busarello, 2024.

Por fim, agradeço novamente às/aos cursistas da primeira turma do Escutatória no SUAS. O curso só foi possível porque vocês me escutaram! Obrigada por isso, pela confiança, pela disponibilidade para o encontro e por me permitirem me tornar um pouco mais possível.

Sobre escuta como dispositivo de trabalho no SUAS: o Escutatória no SUAS começa nesta quinta, às 19h

Sobre escuta como dispositivo de trabalho no SUAS

Embora seja importante conhecer técnicas de comunicação, oratória e escuta para melhorar a comunicação esse não é o foco do curso. Minha proposta é trabalhar no Escutatória um espaço para interrogar o trabalho no SUAS para instrumentalizar ética, teórica e tecnicamente para um fazer que saiba fazer bom uso de um dos dispositivos centrais de todo trabalho relacional, que é a ESCUTA.

Se o argumento central do curso é que escuta é trabalho no SUAS, alguém pode dizer que parece muita promessa, sendo que “nós já sabemos que a escuta é importante no SUAS, que é preciso entender o que a pessoa traz.” Saber que a escuta é importante é diferente de saber desempenhá-la.

Estamos sempre perguntando o que a Psicologia faz no SUAS e, de forma mais ampla, o que os diferentes profissionais, com distintas formações, podem fazer diante de situações tão dramáticas, violentas e marcadas pela negação de direitos fundamentais?

É justamente aí que eu quero situar a escuta. Há uma expectativa difusa de que deveríamos fazer mais do que escutar (escutar seria o meio e nunca o fim), quando, em grande parte do trabalho realizado em todos os níveis da proteção social, o que temos de mais valioso a oferecer é precisamente a escuta – mas não é uma escuta qualquer (não basta adjetivá-la com qualificada ou ativa, ou basta?).

A escuta é meio para várias atividades, mas também é, em si mesma, finalidade do trabalho no SUAS. Em muitos contextos, não há um “além” da escuta que dependa apenas da vontade ou do esforço individual da/o trabalhadora/r. Reconhecer isso é fundamental.

Quando perdemos esse horizonte, muitas profissionais passam a almejar o impossível, a se culpar e a se sentir fracassadas por não conseguirem responder, sozinhas, a problemas que são de ordem estrutural. Mas reconhecer os limites estruturais não significa cair ou ficar circulando a queixa. Também não significa dizer que “não há nada a fazer”. Por isso, não deveria haver espaço para a desresponsabilização do cumprimento de nossa profissão (que é uma função coletiva!). Ao contrário, significa delimitar de forma mais consistente qual é a nossa responsabilidade profissional e reconhecer que, muitas vezes, estamos jogando fora a criança com a água da bacia por desconhecimento de uma ferramenta tão preciosa para a Psicologia, mas também para todas as profissões que se debruçam cotidianamente sobre problemas que necessariamente exigem diálogo, construção de laços e, quando necessário, desenlaces.

Por ora, paro por aqui. Sei que este curso ainda vai me render muitos outros insights sobre a atuação profissional no SUAS e, assim que possível, vou compartilhando por aqui.

Quem quiser se aventurar neste enlace, ainda dá tempo de chegar. Quem não conseguir agora, espero poder ofertar novas turmas desse curso, que demorei mais de quatro anos para tirar do papel 😉 Daí vocês podem imaginar a minha alegria e realização, porque sempre prezei por fazer aquilo que me deixa com brilho nos olhos e, ao mesmo tempo, me permite aprender ensinando.

Atualizações sobre o Curso Escutatória no SUAS

O nó na bolha do SCFV

Um breve comentário sobre impossibilidades e violências. De cá e de lá

Se não houver o além, meu bem, não há motivo – “Laço” (Igor de Carvalho) – Teatro Mágico

Estava em uma atividade e fiquei pensando que se tem uma expectativa sobre o Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos (SCFV) que não corresponde nem ao que o serviço pode ou cabe oferecer, nem à realidade concreta vivida por muitas crianças e adolescentes.

Criança tem direito ao lazer, à moradia digna, à alimentação adequada, ao esporte, à cultura. Esses direitos estão previstos, mas sabemos que muitas delas não têm acesso ou tem de forma precária. Ainda assim, espera-se que o SCFV resolva, por meio de atividades socioeducativas, questões que são estruturais.

Ao mesmo tempo em que se cobra dessas crianças comportamentos considerados adequados, não falar palavrão, não brigar, não demonstrar agressividade, pouco se olha para as condições de vida que atravessam seus corpos e suas histórias. Quando alguma manifestação aparece, rapidamente surge o julgamento: “de onde saiu esse mini monstrinho?”.

Mas, monstrinhos tão sendo “bem criados” longe do SCFV. Jovens convivendo entre seus pares nos condomínios e espaços privados, crendo que eles, desde cedo, são privilegiados, se acham os mais-mais. Muitos crescem sem ter a dimensão de que eles apenas têm acesso ao que toda criança deveria ter (do ponto de vista material e relacional).

Na sociedade (cada um por si), alguns mais-mais são estimulados a serem espertos, empreenderem desde cedo (bora ter e não ser).

E como empreendimento estão as violências. Cometem violências graves — contra animais, contra meninas e mulheres e contra minorias e grupos vulnerabilizados. Ainda assim, esses contextos raramente (quase nunca) entram no debate sobre socialização e convivência no SCFV. Não são considerados e nem reconhecidos com “perfil” para política da assistência social.

Isso pode nos indicar que o problema não está nas crianças atendidas pelo SCFV, mas na forma como, muitas vezes, interpretamos e lidamos com suas experiências e expectativas. Tem também a questão: o problema pode estar em como o trabalho está sendo pensado e operacionalizado.

Talvez o desafio esteja em rever a abordagem. Crianças e adolescentes não precisam que o serviço tente “transformá-los” em algo que eles já sabem que não corresponde a realidade e nem ao que eles precisam. Muitas vezes, o que encontram são propostas muito semelhantes à escola.

O que pode uma proposta socioeducativa que remete a um espaço institucional que pouco tem conseguido criar, que tem funcionado como palco para uma monte de violências institucionais e simbólicas?( Isso, obviamente não é sobre o todo).

O SCFV tem potência quando oferece , veja só: convivência. Mas não é uma convivência idealizada, é uma convivência criada a partir do encontro entre quem participa e quem pode ser chamado pra roda. Espaços de brincar, jogar, experimentar, criar, circular livremente. O brincar não é algo secundário: é na interação viva que se constroem vínculos, se elaboram experiências e se abrem possibilidades de mediação educativa que realmente façam sentido para a criança.

Agora, se o serviço acha que vai dar um crivo à criança e à sua família, ele não está crian

do possibilidade de laços (se assim quiserem) , mas está só com espírito de grandeza. É soberba institucional pra fazer as(os) desavisados dormirem em berço esplêndido. Sabe as agendas, as datas comemorativas? Sabe a páscoa?

O que mais?

Também é preciso escutar as(os) adolescentes. Perguntar, de fato, o que gostariam de fazer, que experiências desejam acessar, que oportunidades percebem faltar em suas trajetórias. Muitas vezes, eles têm clareza sobre aquilo que nunca lhes foi garantido, e que já faltava na vida de suas mães e avós.

Sem espaço para construir perspectivas e horizontes possíveis, torna-se difícil falar em projeto de vida. E sem horizonte, a vida perde sentido.

Por isso, fortalecer vínculos e promover autonomia não passa pela reprodução de um ideal de sujeito, muitas vezes baseado em modelos liberais de família e de trajetória social que não correspondem à realidade da maioria das famílias atendidas. Mas, passa por criar espaço, arquitetar o processo, reconhecer as fissuras. Não é, como costuma acontecer, querer ignorá-las ou abafá-las; é falar dos processos de trabalho, da concepção de convivência e dos vínculos.

Talvez devamos aceitar a tarefa de refazer percursos: percursos que se cruzam entre vielas e condomínios. 

Obrigada pela sua visita leitura e comentário