Compartilhando vivências: vamos falar sobre nossa atuação na Proteção Social Especial?


Oi Pessoal, hoje dou as boas-vindas a estreante da coluna de colaboradores com co-autoria no BPS, Lívia de Paula! É muita alegria ter você aqui, Lívia ❤

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LiviaPor Lívia de Paula*

Como leitora do Blog Psicologia no SUAS, vejo que o sucesso do trabalho desenvolvido pela Rozana Fonseca se relaciona diretamente com algo que nós, técnicos – os chamados “profissionais da ponta” – sentimos como lacuna a ser preenchida: somos carentes de espaços que falem a nossa língua, que abordem a prática cotidiana da nossa atuação com clareza, objetividade e em uma relação “de igual para igual”. Acompanhar este Blog sempre teve este sentido para mim: encontrar os “iguais”, perceber que as dificuldades são semelhantes e ver então confortadas um pouco das minhas angústias diante do trabalho no SUAS, um campo novo, para o qual precisamos nos reinventar. A meu ver, pensar e criar uma prática diferente da tradicional clínica revela-se como algo estimulante, porém também bastante desafiador. Desafiadora também é a tarefa que inicio com este texto: atuar como colaboradora deste espaço, trazendo para ele reflexões sobre minha práxis no campo da política de assistência social. Reflexões essas que também terão como base falar a língua dos trabalhadores do SUAS, principalmente daqueles que, como eu, atuam na Proteção Social Especial (PSE), mais especificamente nos CREAS, com situações de violência contra crianças e adolescentes.

Minha trajetória no SUAS iniciou-se em 2006, quando comecei a atuar como psicóloga, funcionária pública concursada na Prefeitura Municipal de Itaúna, Minas Gerais. O município implantaria em maio de 2006 o Programa Sentinela e eu passei a ser uma das técnicas de referência, atuando no mesmo desde o primeiro dia de seu funcionamento. Tal Programa tinha como objetivo oferecer um conjunto de ações – de natureza especializada – a crianças e adolescentes vítimas de violência, abuso e exploração sexual, bem como a suas famílias. O Programa passou posteriormente a se chamar Serviço de Enfrentamento à Violência, Abuso e Exploração Sexual contra Crianças e Adolescentes e, em 2009, o município implantou o Centro de Referência Especializado de Assistência Social – CREAS e o trabalho desenvolvido pelo Programa Sentinela passou a ser ofertado dentro do PAEFI – Serviço de Proteção e Atendimento Especializado à Famílias e Indivíduos.

Revisitando o Guia de Orientação aos Serviços Municipais de Enfrentamento à Violência, Abuso e Exploração Sexual contra Crianças e Adolescentes – Sentinela, lançado pelo Governo de Minas em novembro de 2006, três questões chamaram minha atenção. Conforme citei anteriormente, o público alvo do serviço é definido como: “crianças e adolescentes vitimizados pela violência sexual, bem como suas famílias.” Aqui surgem as duas primeiras diferenças entre este Serviço e o CREAS: o foco na violência do tipo sexual e na vítima de tal violência, sendo a família citada em segundo lugar. Atualmente o trabalho do CREAS tem a centralidade na família e não apenas na vítima. Além disso, o cuidado é direcionado a vários tipos de violação de direitos, não só à violência sexual.  Outra questão importante refere-se a uma das funções do profissional da Psicologia citadas no documento: “realizar anamnese psicológica”. Anamnese não nos remete a um psicodiagnóstico, a uma linguagem clínica tradicional? Parece que ainda havia muita influência da psicoterapia aqui…

Este retorno à história do cuidado com as situações de violência contra crianças e adolescentes dentro do SUAS mostra-se importante por ilustrar como foram sendo construídas as propostas de ação junto a este público. Uma frase recorrente dentre os psicólogos atuantes no SUAS é: “não fazemos clínica, não fazemos psicoterapia”. E, muitas vezes, nos incomoda não sermos compreendidos neste posicionamento. Aí encontramos um guia que nos orientava a fazer anamnese psicológica, o primeiro procedimento que é realizado dentro do contexto psicoterápico. Diante disso, me coloco a pensar: O quanto avançamos de lá até aqui? O que construímos? Não fazemos psicoterapia. O que fazemos? Como tem se dado o trabalho com as famílias envolvidas em alguma situação de violência contra crianças e adolescentes nos CREAS? Que tipo de Psicologia tem sido possível? Dentre outras coisas, é principalmente sobre estes questionamentos que me debruçarei neste espaço de colaboração. Espero que, através deste espaço, você que está no mesmo barco que eu possa encontrar novas formas de pensar o seu trabalho e contribuir para o fortalecimento da nossa grande equipe: os Trabalhadores da Assistência Social.

*Lívia de Paula – Graduada em Psicologia pela Universidade do Estado de Minas Gerais (2003). Possui formação em Psicoterapia Existencial e especialização em Violência Doméstica contra Crianças e Adolescentes. Foi membro do Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente (Gestões 2010-2012 e 2012 -2014). Atua na área de Assistência Social desde 2006. Atualmente é técnica de referência do PAEFI/CREAS de Itaúna/MG e Coordenadora do GT SUAS da Subsede Centro Oeste do CRP – MG.

Contato:liviadepaulla@yahoo.com.br

28 comentários

  1. Trabalho em um Creas há alguns anos e sempre me pergunto poque não se pode usar a psicoterapia como parte do trabalho com os usuários. No município que trabalho o formato de grupo é muito frágil pq as pessoas não querem partilhar suas dores por ser um município pequeno eles ficam inibidos em falar para todos,muitas vezes pedem uma hora em particular para falar sobre. Gostaria de saber a experiência de outros psicólogos 😉

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    1. Oi Patrícia, as ações do CREAS contempla atendimento particularizado (diferente de psicoterapia) – o grupo não é uma metodologia de atendimento a ser utilizada com todas/os os usuários do serviço, porque é preciso levantar a demanda e possibilidade de cada um em participar. Identificando demanda de psicoterapia, o sujeito deve ser encaminhado à rede de saúde. Um abraço

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  2. Eu me identifiquei com a colocação da Lívia quanto a ter aliviadas algumas das nossas angústias frente a desafiadora atuação na PSE, mediante às ricas contribuições deste Blog. Parabéns a todas! Uma felicidade ter encontrando esse útil canal de saber.

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  3. Boa Noite,

    Sou psicóloga e trabalho com acolhimento institucional. Atualmente estou realizando uma pesquisa com profissionais que atuam em abrigos como tema da minha pesquisa de mestrado. Gostaria de saber se existe um canal de comunicação e acesso aos profissionais que atuam em abrigos e os contatos destes profissionais nos diferentes locais do Brasil. Também gostaria de ver a possibilidade de estreitar a comunicação com você Rozana através de email.

    Grata,

    Elisangela.

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  4. Bom dia colegas de trabalho!
    Gostaria de deixar o questionamento sobre o que é realmente uma psicoterapia e porque não podemos realizá-la na área social. Fica claro em meu trabalho a importância de ações grupais, do olhar psicológico sobre o comportamento humano, do nao atendimento infividualizado como forma de uma psivoterapia individualizada, Mas ainda me perco no fato do nao fazer psicoterapia.

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    1. Olá Daiane,

      Perguntas pertinentes as suas. Merecem bastante reflexão antes de qualquer tentativa de resposta. Acredito que para o trabalho no SUAS é necessário que tenhamos um enfoque que contemple o contexto social no qual todos nós estamos inseridos – trabalhadores e especialmente os usuários. Esse é um dos diferenciais em relação à psicoterapia tradicional. Pensarei mais sobre seus questionamentos e quem sabe eles não se tornam tema de um post.
      Abraço e obrigada pelo comentário.

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  5. Livia ,no Movimento de Reconceituação do Serviço Social houve uma discussão da categoria dos assistentes sociais sobre a Fenomenologia e de certa forma um rompimento com a matriz fenomenologica . O professor José Paulo Neto em seus estudos fala sobre isso.Sugiro um debate nesse sentido.

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    1. Olá Maria! Obrigada por comentar. Você tem como me indicar algum texto ou vídeo onde ele fale sobre isso? Me interessou muito.

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  6. Percebe-se que o papel dos técnicos que atuam no CREAS tem sido confundido, principalmente, com a atuação dos técnicos do SUS e do poder judiciário. Falta mais divulgação entre os demais atores da rede de serviços sobre o que é o SUAS, sua operacionalização, objetivos, serviços e a função da equipe de referência que atuam em seu âmbito, para que esses equívocos possam ser desfeitos.

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    1. Olá Maria Cristina. Obrigada por comentar. Concordo com você! Espero que você continue acompanhando os textos. Um abraço.

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  7. Boa Noite Livia, muito interessante as pontuações em seu texto. Fica ai também uma questão para se refletir é o trabalho sobre investigação que infelizmente em alguns municípios, o Poder Judiciário e ou até mesmo a polícia Civil exige esse tipo de “intervenção”. Me deparo com esse tipo de vamos dizer, determinação vindo desses setores. Cara colega, penso que andamos sempre com interrogações de como nos posicionarmos dentro desse nosso trabalho.

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    1. Oi Viviane! Você levantou uma questão muito importante e que também nos interroga sobre o nosso fazer. Não vejo as interrogações como algo negativo. Que bom que elas sempre nos acompanham e possibilitam a construção de nossas práticas. Um abraço e obrigada pelo comentário.

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  8. Olá Ana Lúcia, obrigada por comentar.
    Interessante sua colocação. Revela o quanto precisamos continuar construindo esse lugar dos profissionais dentro do SUAS e do CREAS, não é mesmo?
    Espero que você continue acompanhando o Blog.
    Um abraço.
    Lívia.

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  9. Olá Andréia. Obrigada pelo seu comentário.
    As interrogações colocadas no texto são as interrogações que me norteiam nas minhas reflexões cotidianas sobre minha atuação no SUAS. Creio em um fazer da Psicologia no CREAS sim, porém creio também que precisamos pensar de que Psicologia estamos falando dentro do contexto do SUAS. Pretendo trazer, nos próximos textos, alguns apontamentos sobre esta questão. Espero que você continue acompanhando. Um abraço.

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  10. Fui coordenadora de CREAS e fiquei surpresa com o instrumental usado anamnese para todos os profissionais. Assistente Social e Psicólogo são profissionais da saúde, mas anamnese é por excelência realizado para os profissionais que atua na área da saúde.

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  11. Olá Livia. Gostaria de saber da sua opinião quanto as interrogações que deixa em seu texto? Você defende algum trabalho da psicologia no CREAS?

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