Sobre as oficinas no SCFV – “O que é o CRAS segundo o Facebook”


Oficinas SCFV CRASOi Pessoal, enfim saiu o Post sobre as oficinas no SCFV da “Série”: O que é o CRAS segundo o Facebook. Por favor, caso você esteja chegando hoje no Blog ou não acompanhou esta discussão, eu recomendo que você recorra aos dois Posts anteriores para se situar: O que é o CRAS segundo o Facebook – PARTE I —  PARTE II – O que é o CRAS segundo o Facebook

Fiquei de escrever sobre as minhas reflexões acerca das atividades e oficinas que ocorrem no Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos – SCFV e sobre os discursos dos profissionais acerca dos grupos atendidos e sobre formas mais assertivas de divulgação dos serviços do CRAS através do Facebook.

Bom, o reordenamento do SCFV, além de outros pontos, veio para enfatizar a necessidade de atender as pessoas, cuja natureza da vulnerabilidade ou risco social as colocam como prioritárias para a proteção social e para que a organização e execução do SUAS abarcassem de vez o PETI. Lembrando que o Programa foi lançado pelo Governo Federal em 1996 e sucessivamente o PETI foi ganhando forma nos Estados e Municípios. Portando o PETI tinha “vida própria” antes do SCFV, e as ações dele então, precisavam ser incorporadas ao SUAS, assim como a sua gestão foi incorporada na Proteção Social Especial.

O SCFV, pelo que vemos nas divulgações na rede social – pontuando as atividades mais recorrentes e comuns – é uma oportunidade para as crianças e adolescentes realizarem atividades esportivas e para a pessoa idosa realizar artesanato e dança. Aí você pensa: é mesmo, mas o que é que isso tem demais? Se você não leu, sugiro a leitura deste texto: PARTE II – O que é o CRAS segundo o Facebook para alguma compreensão dos equívocos evidenciados na reprodução destas atividades.

Não teria problema se o Município estivesse construindo ou aprimorando agenda para as políticas públicas voltadas ao esporte, cultura e lazer em um formato aberto para população em geral e não apenas aos estudantes.  Os Municípios têm secretarias ou departamentos voltados a estas políticas, mas por que não funcionam? E é a assistência que vai ofertar esta política? Mas nem seria ofertar, pois trata-se de atividades sem planejamento neste âmbito e sim tratadas como oficinas para cumprir os objetivos do SCFV.

É bom lembrar que atividades de esporte, cultura, artes fazem parte da formação do sujeito e da vida em sociedade, portanto, independente da condição de vínculos familiares ou comunitárias, todo cidadão tem o direito de acessar essas políticas em qualquer fase de desenvolvimento. Portanto isso deve ser política pública implantada no Município e não a secretaria de assistência social suprir essa lacuna com ações compensatórias.

Compreendo que quando essa demanda existe e a oferta é identificada na assistência social como necessária, é porque a política de esporte, cultura e lazer é inexistente, está precária ou desarticulada no Município e portanto há a desproteção do cidadão e então, em vez de mobilizarmos a comunidade e a gestão para que se organize esta política vamos ofertar estas atividades? As quais acabam ocorrendo em redundância e às vezes “disputando” o mesmo público?

As oficinas de cunho esportivo, cultural, artes podem sim serem recursos meios mas não como fim para alcance dos objetivos do serviço, e nem serem por si só caracterizadas como SCFV. Vemos as unidades encaminhando a criança ou adolescente para a “aula” de futebol, de dança, de teatro e não para o SCFV. É aí que está a questão!

Também é sabido que muitas entidades que ofertam estas atividades são acionadas pelos CRAS, orientados pela gestão, para inserir os usuários no SISC (Sistema de Informações do Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos) sem ao menos passar pela equipe técnica do PAIF.

Cadastrar esse público no CRAS não significa acompanhar. E será que todo mundo é vulnerável e precisa fortalecer os vínculos? Como saber se tem sentido o encaminhamento para aquela família e seus membros sem as ações do PAIF?

Vocês já pensaram nos usuários inseridos no sistema? Eles ficarão quanto tempo lá? O serviço é realizado por percurso e deve ter planejamento com início meio e fim, mas se não há esse planejamento e acompanhamento, como ter as informações sobre os impactos sociais e saber a hora de atualizar o sistema?

Lembrando que esta inserção no sistema tem a ver com o a capacidade de atendimento informada pelos Municípios ao MDS, a qual muitas vezes foi feita sem diagnóstico real da demanda e sem debate com os técnicos e rede de serviços.

O SCFV é complementar ao PAIF, então ele necessariamente deveria estar alinhado com o acompanhamento familiar, monitoramento e avaliação. Acionar o técnico de referência do serviço para dar uma palestra para os pais ou usuários não conseguirá atingir os objetivos do SCFV.

Pois bem, acabei citando vários pontos – posteriormente vamos debatendo e ampliando essas ideias.

SCFV perguntas - Blog Psicologia no SUASEntão, para que possamos identificar o grau de equívocos e necessidades de aprimoramento do SCFV, eu sugiro as seguintes perguntas e reflexões sobre as oficinas?

  1. O seu Município tem Secretaria ou Departamento de Esporte, Cultura e Lazer?
  2. Você (Técnico, Coordenador de CRAS, Coordenador/gerente da PSB, Gestor) já se reuniram com eles para articular agendas de trabalhos?
  3. A inserção dos usuários ao SCFV acontece desarticulada do PAIF?
  4. A equipe técnica do PAIF conhece todos os usuários do SCFV e suas famílias?
  5. O técnico de referência do PAIF, com atribuição de técnico de referência do SCFV tem condições (devido as demais atividades) e é suficiente para articular, planejar e orientar os trabalhos dos orientadores sociais do SCFV?
  6. O SCFV para a pessoa idosa apenas reproduz o que as entidades religiosas e de comunidades já realizavam? (Esta pergunta deve ser contextualizada com a leitura do Texto II)
  7. O SCFV para a faixa etária de 18 a 59 está atendendo as pessoas com deficiência e as demais prioridades?

Faça estas perguntas quanto a execução do SCFV em seu Município para que você possa analisar e ver se esse texto reverbera algum sentido no seu contexto.

Por ora é isso! Vou deixar os demais pontos para a parte IV, acho que ficaria muito embolado tudo aqui.

Um abraço e até o próximo.

19 comentários

  1. Boa tarde Rosana, amei achar em meio as minhas procura, alguem para discorrer sobre o CRAS , Comecei a 10 dias a trabalhar e como estou sozinha …como costumo disser eu e o predio e os equipamentos, estou tentando como profisssional buscando ajuda para tentar realizar o meu trabalho. aqui no seu blog vi a luz ….obrigada!!!

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  2. Olá, estou apaixonada por seus textos, simplesmente você consegue dizer de forma simples e clara parte da experiência que tenho no SUAS e que por vários momentos tive vontade de compartilhar com outras colegas, porém, não conseguia organizar minhas vivências e opiniões. Parabéns! Excelentes colocações e triste realidade de quase todos os municípios quando o assunto é a execução do SCFV.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Obrigada por me dar esse feedback! E o cenário é mesmo lamentável em muitos lugares, mas acredito que o caminho para a mudança é o reconhecimento de que não está bom para assim se abrir para o novo.

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  3. Sou Orientadora Social do Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos , iniciei recentemente o trabalho, mas me preparei para vaga por 2 anos que foram o tempo de aguardo para o chamamento do concurso. Meu objetivo é exatamente este no papel que o Ministério Do Desenvolvimento Social garante e Cumbe a responsabilidade do SCFV através do Caderno de perguntas e respostas editado em 2016 para eventuais dúvidas referentes ao serviço. Meu maior questionamento é a falta de embasamento nas condicionalidades que o Ministério impõe e que os SCFV não suprem… Também por saber as responsabilidade que cada um tem dentro do SCFV, e assim também como os Facilitadores de Oficina, E podendo contar com auxílio do Técnico em Referência vinculado ao Cras . Muitas dificuldades se colocam neste meio, devido a democratização da comunicação e falta de conhecimento.

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    1. Oi Juliene!
      Parabéns por ter se preparado e com certeza verá que precisamos atualizar sempre sobre o trabalho.
      Eu não entendi quando você fala da falta de embasamento nas condicionalidades e como que a democratização da comunicação seria ruim?

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  4. Estou coordenadora do CRAS a 3 meses, concordo plenamente com as suas ideias! Pois quando fui convidada ao cargo de coordenadora do CRAS, comecei uma pesquisa na internet e também nas redes sociais e por acaso hoje achei o seu blog. Você está de parabéns, amei!! Estou a horas lendo as suas postagens. E esses 3 textos sobre o que é o CRAS no Facebook é a mais pura realidade! A dois meses contratamos uma Assistente Social que mudou a nossa ideia de entender o serviço do CRAS. O SCFV é complementar ao PAIF, o trabalho não vai ter resultado agora, mas estamos trabalhando nesse seguimento, não somos uma casa de ministrar curso, somos a CASA da FAMÍLIA, estamos aqui para acompanhar, acolher e orientar essas famílias . A minha formação é em Economia Doméstica, o curso tem por base atividades que visa melhorias na qualidade de vida do indivíduos e a comidade!
    Obrigada pelos textos

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  5. Olá. Boa tarde. Estou lendo alguns post e quero parabenizar por seus textos sobre a assistência social. Percebo-se que existe uma enorme confusão de quem deve ser inserido no SCFV. Então pergunto a sua opinião para se qualquer usuário pode ser inserido no Serviço bastando ter a faixa etária indicada? “Será que todo mundo é vulnerável e precisa fortalecer os vínculos?”

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  6. Quero parabenizar essa equipe do Site, estou aprendendo e aprimorando muito, que bom seria se todos trabalhadores da área conseguisse pelo menos enxergar o trabalho proposto, amo o que faço mas infelizmente tenho dificuldades que trabalhar da forma certa pois os demais não tem a mesma visão. Mas com fé em DEUS uma hora da certo.

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  7. Diante de cinquenta reais que equivale cada pessoa que participa do SCFV, tornou-se importante o quantitativo em detrimento do qualitativo. O que importa é fazer bonito aos olhos da imprensa. Percebo também a submissão do conhecimento das demandas no trabalho, ferindo a autonomia do conhecimento, envolvendo uma alienação por parte dos profissionais que atuam nesta política. A qualificação teórica e metodológica se faz necessária permanentemente e isso demanda tempo e compromisso dos profissionais. Devemos reconhecer também que a precarização do trabalho também contribui, um espaço profissional com profissionais sob regime de trabalho muito diferentes, contratados por tempo determinado, destituídos de direitos trabalhistas, a tão falada terceirização que afeta tanto a rotina de trabalho. São muitos os desafios que encontramos no dia a dia do CRAS e tudo isso só terá sentido através de um profissional que se proponha a fazer diferente, que se proponha a ser propositivo a ver além do que está posto.Se um direito está sendo violado é porque um conjunto de direitos está sendo violado. Agradeço o espaço onde nos faz inquietar e mudar de posição na cadeira. grande abraço!

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    1. Olá Ardnas,

      Obrigada pelo excelente comentário. Eu entendo que passa por todos esses pontos que você levantou, e que maravilha ler essa última linha do seu texto! pois são os objetivos dos meus posts e que bom que ressoaram em você!
      Outro abraço pra você!

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