Carta aberta às/aos cursistas do Escutatória no SUAS – Primeira Turma

Agradecimentos e considerações Findamos essa pequena grande jornada do meu primeiro curso online! Que responsabilidade! Sim, eu morria de medo de oferecer um curso em que eu me traísse ou com o qual eu não me sentisse extremamente feliz. Lutei contra isso por vários anos e eis que consegui lançar o curso com o jeitinho que imaginei (tinha que ser uma experência, para quem apostou na aprendizagem e para mim!) Talvez excessivamente cheio de detalhes, talvez excessivamente cheio de referências, mas o certo é que concluí o curso com a certeza de que ele foi o melhor que eu podia ofertar neste momento. Reconheço que não adiantava esperar mais alguns anos para inaugurá-lo. Eu não o melhoraria sozinha. Eu precisava da primeira turma para sossegar minhas ideias e para ir entendendo o que funciona e o que não favorece a escuta. Eu nunca vou conseguir demonstrar o tamanho da minha gratidão a vocês colegas do SUAS que apostaram nessa jornada comigo na primeira turma e me permitiram aprender enquanto ensinava. Para escutar os outros, temos que apostar na arte de nos escutar, e nisso vocês me ajudaram com maestria. Prezei por uma turma pequena, e foi um acerto, porque a turma pequena nos aproxima, nos possibilita mais espaço para diálogos sem pressa, nos permite se jogar na experiência, dar as caras, literalmente. Numa turma pequena, conseguimos mais de 80% de câmeras abertas num curso online. Isso é maravilhoso! Num contexto de excesso de informações e de cursos rápidos e diretivos, colocar-se em experiência, hoje em dia, é ter coragem e, ao mesmo tempo, colocar-se realmente ativo no processo de aprendizagem. Não é fácil, eu reconheço. A vida exige várias tarefas ao mesmo tempo e a gente, muitas vezes, não é autorizado a parar. Parar para escutar. Minha questão central era ofertar um curso que operasse pela primazia da experiência. Percebo que quem se permitiu, ou foi autorizada pelo cotidiano, pôde vivenciar a ESCUTA como um divisor na trajetória profissional no SUAS, como eu escutei de vocês que concluíram a experiência ao vivo. Para quem não conseguiu embarcar, ou embarcou e não pôde permanecer no orgânico do ao vivo e da tarefa, deixo meus votos para que possam acessar o material, demasiadamente pensado para fazer parte, ao modo de cada uma e cada um, da jornada de experiência de se tornar uma/um escutadora/r. Jornada que está longe de se encerrar no Escutatória. Pelo contrário, ela inaugura a exigência de que a/o trabalhadora/r do SUAS configure a escuta como seu dispositivo de trabalho técnico, ético e político, e tomem as rédeas do seu trabalho profissional num processo de corresponsabilização e controle do próprio trabalho, na direção da transformação política e da promoção de saúde ético-política, como defendem Sawaia e Busarello, 2024. Por fim, agradeço novamente às/aos cursistas da primeira turma do Escutatória no SUAS. O curso só foi possível porque vocês me escutaram! Obrigada por isso, pela confiança, pela disponibilidade para o encontro e por me permitirem me tornar um pouco mais possível.

Sobre escuta como dispositivo de trabalho no SUAS: o Escutatória no SUAS começa nesta quinta, às 19h

Embora seja importante conhecer técnicas de comunicação, oratória e escuta para melhorar a comunicação esse não é o foco do curso. Minha proposta é trabalhar no Escutatória um espaço para interrogar o trabalho no SUAS para instrumentalizar ética, teórica e tecnicamente para um fazer que saiba fazer bom uso de um dos dispositivos centrais de todo trabalho relacional, que é a ESCUTA.

Atualizações sobre o Curso Escutatória no SUAS

O curso de Escutatória no SUAS está disponível para pessoas físicas e jurídicas, com diversas opções de pagamento, incluindo boleto e cartão de crédito. É fundamental que as informações do CNPJ sejam corretamente preenchidas ao inscrever pessoas jurídicas. Mais detalhes e links para grupos estão disponíveis no conteúdo.

O nó na bolha do SCFV

Um breve comentário sobre impossibilidades e violências. De cá e de lá Se não houver o além, meu bem, não há motivo – “Laço” (Igor de Carvalho) – Teatro Mágico Estava em uma atividade e fiquei pensando que se tem uma expectativa sobre o Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos (SCFV) que não corresponde nem ao que o serviço pode ou cabe oferecer, nem à realidade concreta vivida por muitas crianças e adolescentes. Criança tem direito ao lazer, à moradia digna, à alimentação adequada, ao esporte, à cultura. Esses direitos estão previstos, mas sabemos que muitas delas não têm acesso ou tem de forma precária. Ainda assim, espera-se que o SCFV resolva, por meio de atividades socioeducativas, questões que são estruturais. Ao mesmo tempo em que se cobra dessas crianças comportamentos considerados adequados, não falar palavrão, não brigar, não demonstrar agressividade, pouco se olha para as condições de vida que atravessam seus corpos e suas histórias. Quando alguma manifestação aparece, rapidamente surge o julgamento: “de onde saiu esse mini monstrinho?”. Mas, monstrinhos tão sendo “bem criados” longe do SCFV. Jovens convivendo entre seus pares nos condomínios e espaços privados, crendo que eles, desde cedo, são privilegiados, se acham os mais-mais. Muitos crescem sem ter a dimensão de que eles apenas têm acesso ao que toda criança deveria ter (do ponto de vista material e relacional). Na sociedade (cada um por si), alguns mais-mais são estimulados a serem espertos, empreenderem desde cedo (bora ter e não ser). E como empreendimento estão as violências. Cometem violências graves — contra animais, contra meninas e mulheres e contra minorias e grupos vulnerabilizados. Ainda assim, esses contextos raramente (quase nunca) entram no debate sobre socialização e convivência no SCFV. Não são considerados e nem reconhecidos com “perfil” para política da assistência social. Isso pode nos indicar que o problema não está nas crianças atendidas pelo SCFV, mas na forma como, muitas vezes, interpretamos e lidamos com suas experiências e expectativas. Tem também a questão: o problema pode estar em como o trabalho está sendo pensado e operacionalizado. Talvez o desafio esteja em rever a abordagem. Crianças e adolescentes não precisam que o serviço tente “transformá-los” em algo que eles já sabem que não corresponde a realidade e nem ao que eles precisam. Muitas vezes, o que encontram são propostas muito semelhantes à escola. O que pode uma proposta socioeducativa que remete a um espaço institucional que pouco tem conseguido criar, que tem funcionado como palco para uma monte de violências institucionais e simbólicas?( Isso, obviamente não é sobre o todo). O SCFV tem potência quando oferece , veja só: convivência. Mas não é uma convivência idealizada, é uma convivência criada a partir do encontro entre quem participa e quem pode ser chamado pra roda. Espaços de brincar, jogar, experimentar, criar, circular livremente. O brincar não é algo secundário: é na interação viva que se constroem vínculos, se elaboram experiências e se abrem possibilidades de mediação educativa que realmente façam sentido para a criança. Agora, se o serviço acha que vai dar um crivo à criança e à sua família, ele não está crian do possibilidade de laços (se assim quiserem) , mas está só com espírito de grandeza. É soberba institucional pra fazer as(os) desavisados dormirem em berço esplêndido. Sabe as agendas, as datas comemorativas? Sabe a páscoa? O que mais? Também é preciso escutar as(os) adolescentes. Perguntar, de fato, o que gostariam de fazer, que experiências desejam acessar, que oportunidades percebem faltar em suas trajetórias. Muitas vezes, eles têm clareza sobre aquilo que nunca lhes foi garantido, e que já faltava na vida de suas mães e avós. Sem espaço para construir perspectivas e horizontes possíveis, torna-se difícil falar em projeto de vida. E sem horizonte, a vida perde sentido. Por isso, fortalecer vínculos e promover autonomia não passa pela reprodução de um ideal de sujeito, muitas vezes baseado em modelos liberais de família e de trajetória social que não correspondem à realidade da maioria das famílias atendidas. Mas, passa por criar espaço, arquitetar o processo, reconhecer as fissuras. Não é, como costuma acontecer, querer ignorá-las ou abafá-las; é falar dos processos de trabalho, da concepção de convivência e dos vínculos. Talvez devamos aceitar a tarefa de refazer percursos: percursos que se cruzam entre vielas e condomínios.  https://youtu.be/Ijf_XdxQOS4?si=gSlqv3-cMch24JMK março 14, 2026 O nó na bolha do SCFV março 8, 2026 Manual de redação de documentos no SUAS: resenha março 8, 2026 INSCRIÇÕES ABERTAS PARA O CURSO SOBRE ESCUTA COMO FERRAMENTA DE TRABALHO NO SUAS janeiro 13, 2026 DA ABORDAGEM MORALISTA OU PRODUTIVISTA À ESCUTA COMO TECNOLOGIA SOCIAL

Manual de redação de documentos no SUAS: resenha

Resenha do livro: Palavras em Busca de Direitos: Um Manual de redação de documentos técnicos do Sistema Único de Assistência Social para psicólogas e psicólogos, de autoria de Érika de Oliveira Lino dos Santos, 2024. Não é exagero dizer que a produção de relatórios no âmbito do Sistema Único de Assistência Social (SUAS) está entre as maiores angústias e desafios para psicólogas(os) no SUAS. É nesse cenário que o livro Palavras em Busca de Direitos: Um Manual de redação de documentos técnicos do Sistema Único de Assistência Social para psicólogas e psicólogos, de autoria de Érika de Oliveira Lino dos Santos, apresenta-se como um guia precioso para quem deseja aprimorar esta tarefa. É um curso materializado em texto. Com uma linguagem fluida e propositalmente “falada”, a autora estabelece uma interlocução direta com a(o) leitora(r), deixando o conteúdo de fácil entendimento. Eu terminei a leitura e me perguntei: se alguém ainda fizer errado depois disso tudo aqui, podemos desistir? Erika é certeira ao enfatizar que um documento não é um fim em si mesmo, mas o reflexo de um processo de trabalho. Ou seja, se não tem registro e nem planejamento adequado dos atendimentos e acompanhamento, o relatório vira quase uma “invenção” descritiva. E isso, além de antiético, é perigoso. Acredito que por isso,  o livro reserva umas partes fundamentais: orientações minuciosas sobre o registro de atendimentos em prontuários e a construção do Plano de Atendimento Familiar (PAF). Erika enfatiza, com a propriedade de quem conhece o cotidiano das unidades, que a qualidade da redação técnica é indissociável da qualidade do acompanhamento. Se o controle e a consciência ética do que é realizado no dia a dia estão bem estabelecidos, a elaboração do relatório torna-se um desdobramento natural, prático e assertivo. É, portanto, um guia “à prova de erros” para profissionais que iniciaram sua trajetória no SUAS e que buscam parâmetros seguros para sua atuação. Um ponto de ruptura essencial que a autora promove é o afastamento de qualquer lógica punitivista ou fiscalizatória na escrita. Isso é muito importante, porque relatório não existe para criminalizar a pobreza ou julgar as dinâmicas familiares sob uma ótica moralista ou punitivista. Pelo contrário, como o próprio título sugere, as palavras ali contidas devem ser ferramentas para ampliar o acesso a direitos. O documento técnico assume seu papel de instrumento de viabilização da proteção social, ao traduzir as necessidades da família em requisições fundamentadas de direitos e provisões do Estado. Vale destacar que, mesmo quando se destina a comunicar suspeitas de violências, o documento não pode ele próprio operar de forma violenta, expondo, julgando ou constrangendo, por meio de violências simbólicas, morais ou institucionais, as famílias e as pessoas a quem deveria proteger. Portanto, não tenho dúvidas de que o livro irá ajudar você a aprimorar sua compreensão quanto a finalidade e produção de relatórios e documentos. Como disse, o livro cumpre o objetivo proposto, é muito prático. Fico, porém, na expectativa por um próximo volume no qual a autora pudesse explorar sobre a importância de que os relatórios sejam fundamentados cientificamente. Há um cuidado no livro em ancorar a redação de documentos técnicos nas normativas da profissão e do SUAS, contudo, senti que há caminho para uma próxima parte que aprofundasse sobre a importância de argumentos técnicos científicos nos documentos, ou seja, quais as perspectivas teóricas embasam o que é escrito ou o que não é escrito. Sobre isso, já envio toda torcida aqui para Erika escrever o volume 2, quem sabe! Reforço isso porque, a meu ver, um dos grandes problemas quanto a qualidade de relatórios no âmbito do SUAS é a prevalência da descrição exagerada e até antiética em detrimento da análise técnica aprofundada. Certamente é um problema com raízes na precarização e nos processos de trabalho e em lacunas da formação acadêmica. Por isso, acredito que o rigor das análises, é o caminho urgente para ultrapassar  o descritivismo que opera direta e indiretamente como exposição de pessoas e famílias sem nenhuma função de ampliar acessos a direitos, pelo contrário, age como uma ferramenta intimidadora e inviabilizadora de vínculos das famílias com os serviços. Enfrentar isso é um dos maiores méritos do trabalho da Erika com este livro! Por fim, recomendo a leitura do livro e o acompanhamento do trabalho de Érika Lino em sua página no Instagram (@derepentesuas). Em tempos de produção de conteúdo em massa e superficial, ela se destaca pelo cuidado de suas reflexões. Como bem sintetizou uma amiga, Érika consegue escrever o que ainda não tínhamos conseguido formular para a nossa prática. O livro foi publicado de forma independente, pela editora Clube de Autores em 2024, e pode ser adquirido diretamente no site da editora ou na Amazon, eBook Kindle. Agradeço imensamente à Erika pela oportunidade de ler e ter o seu livro. Tomando gancho no que ela escreveu na dedicaria, digo que este livro é uma luz no caminho de muitas colegas recém chegadas no SUAS ou quem ainda está perdida(o) com os documentos na rotina do trabalho no SUAS.

DA ABORDAGEM MORALISTA OU PRODUTIVISTA À ESCUTA COMO TECNOLOGIA SOCIAL

Rubem Alves escreveu que “(…) nossa incapacidade de ouvir é uma forma de arrogância”. Essa provocação tem uma centralidade na dimensão moral da escuta e para o quanto ouvir exige deslocamento de si, suspensão do próprio saber e abertura ao outro. É uma leitura interessante, sobretudo para desnaturalizar práticas marcadas pelo julgamento e pelo uso de poder. No entanto, quando deslocamos essa reflexão para o campo do trabalho social, especialmente no SUAS, é preciso ir além da chave moral. No cotidiano profissional, a incapacidade de escutar não deve ser vista apenas como expressão de arrogância individual. Ela é, sobretudo, consequência de formações insuficientes, de pouco ou ausência de Educação Permanente e de processos de trabalho mal estruturados, que não reconhecem a escuta como ferramenta de atuação. Do ponto de vista da escuta como tecnologia social, a dificuldade de escutar é produzida institucionalmente. Resulta de modelos de gestão excessivamente medidos por números, de rotinas orientadas pela urgência e pelo improviso, e de arranjos de trabalho que transformam o encontro com as pessoas usuárias em procedimento, e não em atuação transformadora. Escutar mal, nesse contexto, não é um desvio individual e isolado, é produto de formação frágil e de processos de trabalho que não atendem a realidade das demandas. Por isso, no campo das políticas públicas, mais especificamente no SUAS, precisamos nomear a escuta em sua dimensão técnica e política – a dimensão ética é importante, mas ela não pode muito (ou quase nada) sozinha. Escuta não é improviso, nem atributo pessoal. Escuta se aprende, se sustenta e se organiza como trabalho. Reconhecê-la assim é condição para reduzir violências institucionais, qualificar práticas e devolver às trabalhadoras e aos trabalhadores maior controle sobre o próprio fazer profissional. Quer aprender a ESCUTAR a partir dessa perspectiva? https://www.even3.com.br/escutatoria-no-suas-698478/

Participe da pesquisa: Violência vivida por profissionais da Assistência Social

Passando aqui para compartilhar um convite da pesquisadora Gabrielli Sobral Dias, mestranda do Programa de Pós-Graduação em Estado e Sociedade, da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), sob orientação da Profa. Dra. Sandra Neves Nunes para participação na pesquisa intitulada Violência vivida por profissionais da Assistência Social quando reproduzidas por usuários dos serviços: fatores de risco psicossociais e associação com variáveis sociodemográficas e sócio-ocupacionais. O estudo tem como objetivo investigar a prevalência de violência relacionada ao trabalho e os fatores de risco psicossociais associados à violência sofrida por profissionais do Sistema Único de Assistência Social – SUAS – quando exercida por usuários dos serviços. Além disso, busca-se examinar as influências de variáveis sociodemográficas e sócio-ocupacionais sobre as distintas formas de violência e sobre os fatores de risco psicossociais relativos às violências sofridas. Para participar, é só entrar neste link e preencher o formulário da pesquisa: https://docs.google.com/forms/d/e/1FAIpQLScWuzyUvkiXe_aXfh9E2E0cnXx2-yaCS80j3JsDc4GXk008Pw/viewform?usp=header

Linha do Tempo: uma metodologia viva para trabalhar histórias, vínculos e territórios no SUAS

  Antes de apresentar o texto proposto no título, deixa eu falar com vocês, porque quem é vivo, sempre aparece! Ainda bem!! Depois de um bom tempo sem aparecer por aqui, volto com o coração cheio de entusiasmo para compartilhar uma nova contribuição. E é uma contribuição bem aguardada por mim. Sempre admirei o grupo que vou apresentrar à vocês hoje! Os últimos meses foram marcados por projetos, mudanças e desafios na vida profissional e, como acontece com muitas de nós no SUAS, às vezes é preciso se recolher um pouco para reorganizar, refletir e seguir em frente com mais consistência e sentido. Mas a vontade de estar aqui, trocando, nunca desapareceu. E é com alegria que compartilho com vocês uma ferramenta que, espero, poder inspirar, apoiar e fazer sentido na prática na assistência social. E aproveito para dizer que o projeto no Substack continua de pé! Vou escrevendo à medida que for possível, sem pressa, mas com muita vontade de seguir contribuindo. E como prometido: os textos e contribuições de utilidade pública continuarão com acesso 100% livre pelo BPS e pelo Substack, porque compartilhar conhecimento é, também, um ato político e um compromisso com o fortalecimento do SUAS. Aproveito para agradecer ao Coletivo Articulando Redes, em especial, à Márcia Mansur, pela confiança em dividir essa contribuição por meio deste espaço potente e ainda necessário que nunca perde o jeitim especial de juntar gente do SUAS (ainda mais de Minas!!). Tomara que a proposta circule, se espalhe, chegue a muitos territórios e que possa ser adaptada, reaproveitada e fortalecida por cada profissional que encontrar nela uma inspiração ou um ponto de partida. Vamos ao texto: Linha do Tempo: uma metodologia viva para trabalhar histórias, vínculos e territórios no SUAS, Por Márcia Mansur Saadallah – Coletivo Articulando Redes A história de um território é, em essência, a história das pessoas que o habitam. Cada rua, praça e cada cantinho guarda memórias que, quando compartilhadas, fortalecem os laços comunitários e promovem uma compreensão mais profunda do coletivo em que vivemos. Uma maneira criativa e dinâmica de explorar essas histórias é através da construção de uma linha do tempo coletiva. Esse texto apresenta a metodologia Linha do Tempo, uma ferramenta desenvolvida pela professora Márcia Mansur Saadallah, criada para fortalecer o trabalho com narrativas, memórias e vivências territoriais. . Desde a sua criação, a metodologia tem sido aplicada em diferentes contextos e projetos com o propósito de fortalecer vínculos, promover refl exões coletivas e valorizar as vivências locais. Nos últimos oito anos, o Coletivo Articulando Redes1 tem difundido e aprimorado essa prática em parceria com profi ssionais, comunidades e territórios da Proteção Social Básica e Especial do SUAS em Belo Horizonte e região metropolitana. Ao longo deste percurso, a Linha do Tempo tem se mostrado uma potente estratégia para estimular a participação e integração de pequenos grupos. Utilizada em campanhas, eventos, ofi cinas e ações comunitárias, além de formações com profi ssionais da Assistência Social, a Linha do Tempo é uma técnica que possibilita versatilidade na execução para melhor adaptação ao contexto. Pensando nos objetivos da política, especialmente nos objetivos que tange às ações desenvolvidas pelo Serviço de Proteção e Atendimento Integral à Família (PAIF) e no Serviço de Proteção e Atendimento Especializado a Famílias e Indivíduos (PAEFI), esta técnica visa o fortalecimento dos vínculos familiares e comunitários, a promoção da escuta e valorização das histórias de vida das/os usuárias/os. Também favorece a promoção do acesso a direitos e a formação de territórios mais protetivos. Essencialmente pensada para o trabalho com grupos, a partir da partilha de relatos e da reconstrução das trajetórias pessoais, os participantes ampliam sua compreensão sobre suas próprias histórias, além de compartilharem vivências comunitárias e territoriais. Nas experiências do Coletivo Articulando Redes, a Linha do Tempo é o primeiro momento de integração do grupo: é a acolhida, o início da formação de laços, quando cada pessoa ainda não se reconhece parte de um coletivo. Cada participante chega com suas próprias ideias, sentimentos e objetivos para o encontro – memórias que, juntas, começam a compor uma narrativa comum. Para facilitar a compreensão e a replicação da técnica, apresentamos abaixo uma fi cha ilustrada com o passo a passo detalhado de sua aplicação. A partir das histórias individuais, tecidas no chão comum do território, criam=se histórias coletivas. Ao organizar as narrativas e os acontecimentos em uma sequência temporal, começa a ganhar sentido o território vivido pois se encontram na similaridade com a história do outro, no reconhecimento de cenários, nos fatos históricos, nas lutas comunitárias, nas desproteções e riscos, nas proteções e potencialidades, na solidariedade e no comum. Dessa forma, a ferramenta fortalece o sentimento de pertencimento e os vínculos entre os sujeitos, estimulando o diálogo, a troca de saberes e a valorização das histórias de cada indivíduo. Isso permite que compreendam seu papel dentro do grupo ou comunidade, contribuindo para a construção e o fortalecimento de uma identidade coletiva (KOGA, 2011). O uso da Linha do Tempo enquanto uma técnica para trabalhos comunitários também contribui para a formulação de estratégias mais alinhadas às realidades locais. Ao registrar memórias e vivências em determinado espaço, é possível compreender melhor as transformações dos territórios e as necessidades das comunidades, possibilitando intervenções mais efi cazes e colaborativas. Quando um grupo de pessoas se reúne para discutir seus problemas, muitas vezes sentidos como exclusivos de cada um dos indivíduos, descobrem existirem aspectos comuns, decorrentes das próprias condições sociais de vida; o grupo poderá se organizar para uma ação conjunta visando a solução de seus problemas. E aquelas necessidades, que sozinhos eles não podiam satisfazer, passam a ser resolvidas pela cooperação entre eles. (LANE, 2006, p. 69) Sendo assim, acredita-se que esta técnica também possibilita o que se pode chamar de “micro-vigilância”, ou seja, a análise e diagnóstico mais próximo da situação e realidade do território e suas ruas, bairros e vizinhanças para intervenções mais apropriadas aos contextos. A Linha do Tempo pode ser um importante disparador de refl exões que se desdobram em ações e