Feliz Gestão Nova: o SUAS convida a uma Psicologia neutra?

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Carlos Denis de Campos Pereira
9 anos atrás

Olá Lívia,
Gostei muito do seu artigo! Contribuindo, um pouco, para uma interlocução, eu diria que socialmente, a PSICOLOGIA nunca foi e nunca será neutra. Na perspectiva de Foucault, em diversos livros e textos, ele demarca isso muito bem. Vejamos no caso da PSICOLOGIA (diversas teorias e técnicas) em seu livro AS PALAVRAS E AS COISAS: a PSICOLOGIA tem uma função social bem definida na genealogia da sociedade moderna (atual). Seria uma “função normativa”. Por aí entendemos o que significa ser “neutro”: é ser normativo. Estabelecer padrões aceitáveis, dizer o que é normal e anormal e por aí vai. Temos os nossos consultórios, os nosso testes psicológicos (de uso exclusivos), os nossos diversos saberes e olhares, que em uma análise histórica, trata-se de um “saber normativo”.
Vejamos um exemplo prático, através de duas situações, em cima dos conceitos que você destacou: “[…] procedimentos impulsionadores das potencialidades e da emancipação […]”.
1) Situação comum: um aluno, de uma escola muito autoritária, é atendido pela psicopedagoga e recebe o diagnóstico de hiperatividade e déficit de atenção; ele foi encaminhado ao médico para medicação com a “Rita Lina” e à psicóloga para psicoterapia de apoio individual e familiar. Continuará com atendimentos com a psicopedagoga também.
2) Situação não comum: tendo em vista a cultura autoritária da escola, o coletivo escolar construiu um novo projeto político-pedagógico para a escola autoritária. Depois de colocado em prática, verificou-se que a escola deixou de ter um clima autoritário e agora está bastante democrática, com os professores desenvolvendo diversas disciplinas coletivamente, através de projetos interdisciplinares, com muita participação dos alunos, das famílias e da comunidade. Agora, a escola é considerada uma “escola feliz, alegre e gostosa”. Não há encaminhamentos de alunos com problemas de aprendizagem e de comportamentos inadequados à psicopedagoga, ao médico e à psicóloga.
Enfim, diante das duas situações, qual o modelo de psicologia é “impulsionador das potencialidades e da emancipação”?
Como conversar isso com meus “colegas psi”, que ganham dinheiro com a “função normativa”? Como discutir isso em um Conselho Profissional? E os nossos testes exclusivos? Eles irão me interrogar: Você ficou louco?! Quem sabe eu serei encaminhado à Rita Lina e ao psicanalista?
Só existe uma solução: temos que ser NEUTROS! Por isso o SILÊNCIO que é a característica mais presente da psicologia na atualidade diante da política e da geopolítica.
Citação de Foucault: “No entanto, pode-se dizer, de maneira global, que a psicologia é fundamentalmente um estudo do homem em termos de FUNÇÕES E DE NORMAS (funções e normas que se podem, de maneira secundária, interpretar a partir dos conflitos e das significações, das regras e dos sistemas) […]”. (FOUCAULT – AS PALAVRAS E AS COISAS, 1966, pág. 494 do livro ou pág. 382 do documento em pdf).
http://tv.up.pt/uploads/attachment/file/318/foucault-michel-as-palavras-e-as-coisas-digitalizado.pdf

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9 anos atrás

[…] o Dicionário Michaelis On-line[i], encontramos os seguintes sentidos para neutralidade: “condição daquele que se abstém de tomar […]

Lívia de Paula
Lívia de Paula
9 anos atrás

Oi Carlos Denis,
Mais uma vez obrigada pela rica interlocução e por este comentário tão agregador. Nossa gênese é normativa não é mesmo? Longo caminho a se percorrer!! Mas o importante é que estamos na estrada! Grande abraço!

Antonio Ronaut
Antonio Ronaut
9 anos atrás

Eu entendo a neutralidade na Assistência Social como uma abertura do propfissional para receber as pessoas, suas necessidades. Só faz sentido ser neutro assim (no meu entendimento), pois a partir desta neutralidade que é possível impulsionar as pessoas a alcançar o seu melhor, dentro do que é possível.

Lívia de Paula
Lívia de Paula
Responder para  Antonio Ronaut
9 anos atrás

Concordo com você Antônio. Esta, inclusive, foi uma das dúvidas que tive ao escrever o texto. Porque esta neutralidade é sim muito importante. Um abraço, obrigada!!

Ruana Soares
Ruana Soares
9 anos atrás

Ótima reflexão. Sou uma recém chegada na Assistência e o blog tem sido uma ótima fonte de conhecimento, informação e reflexão. A questão da neutralidade, da forma como foi colocada, é de fato um desafio para todos nós trabalhadores do SUAS. Mas, mais do que nunca é preciso que nos posicionemos e que exerçamos, de fato, a função para a qual somos remunerados.

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