Sobre escuta como dispositivo de trabalho no SUAS
Embora seja importante conhecer técnicas de comunicação, oratória e escuta para melhorar a comunicação esse não é o foco do curso. Minha proposta é trabalhar no Escutatória um espaço para interrogar o trabalho no SUAS para instrumentalizar ética, teórica e tecnicamente para um fazer que saiba fazer bom uso de um dos dispositivos centrais de todo trabalho relacional, que é a ESCUTA.
Se o argumento central do curso é que escuta é trabalho no SUAS, alguém pode dizer que parece muita promessa, sendo que “nós já sabemos que a escuta é importante no SUAS, que é preciso entender o que a pessoa traz.” Saber que a escuta é importante é diferente de saber desempenhá-la.
Estamos sempre perguntando o que a Psicologia faz no SUAS e, de forma mais ampla, o que os diferentes profissionais, com distintas formações, podem fazer diante de situações tão dramáticas, violentas e marcadas pela negação de direitos fundamentais?
É justamente aí que eu quero situar a escuta. Há uma expectativa difusa de que deveríamos fazer mais do que escutar (escutar seria o meio e nunca o fim), quando, em grande parte do trabalho realizado em todos os níveis da proteção social, o que temos de mais valioso a oferecer é precisamente a escuta – mas não é uma escuta qualquer (não basta adjetivá-la com qualificada ou ativa, ou basta?).
A escuta é meio para várias atividades, mas também é, em si mesma, finalidade do trabalho no SUAS. Em muitos contextos, não há um “além” da escuta que dependa apenas da vontade ou do esforço individual da/o trabalhadora/r. Reconhecer isso é fundamental.
Quando perdemos esse horizonte, muitas profissionais passam a almejar o impossível, a se culpar e a se sentir fracassadas por não conseguirem responder, sozinhas, a problemas que são de ordem estrutural. Mas reconhecer os limites estruturais não significa cair ou ficar circulando a queixa. Também não significa dizer que “não há nada a fazer”. Por isso, não deveria haver espaço para a desresponsabilização do cumprimento de nossa profissão (que é uma função coletiva!). Ao contrário, significa delimitar de forma mais consistente qual é a nossa responsabilidade profissional e reconhecer que, muitas vezes, estamos jogando fora a criança com a água da bacia por desconhecimento de uma ferramenta tão preciosa para a Psicologia, mas também para todas as profissões que se debruçam cotidianamente sobre problemas que necessariamente exigem diálogo, construção de laços e, quando necessário, desenlaces.
Por ora, paro por aqui. Sei que este curso ainda vai me render muitos outros insights sobre a atuação profissional no SUAS e, assim que possível, vou compartilhando por aqui.
Quem quiser se aventurar neste enlace, ainda dá tempo de chegar. Quem não conseguir agora, espero poder ofertar novas turmas desse curso, que demorei mais de quatro anos para tirar do papel Daí vocês podem imaginar a minha alegria e realização, porque sempre prezei por fazer aquilo que me deixa com brilho nos olhos e, ao mesmo tempo, me permite aprender ensinando.