Rubem Alves escreveu que “(…) nossa incapacidade de ouvir é uma forma de arrogância”. Essa provocação tem uma centralidade na dimensão moral da escuta e para o quanto ouvir exige deslocamento de si, suspensão do próprio saber e abertura ao outro. É uma leitura interessante, sobretudo para desnaturalizar práticas marcadas pelo julgamento e pelo uso de poder.

No entanto, quando deslocamos essa reflexão para o campo do trabalho social, especialmente no SUAS, é preciso ir além da chave moral. No cotidiano profissional, a incapacidade de escutar não deve ser vista apenas como expressão de arrogância individual. Ela é, sobretudo, consequência de formações insuficientes, de pouco ou ausência de Educação Permanente e de processos de trabalho mal estruturados, que não reconhecem a escuta como ferramenta de atuação.

Do ponto de vista da escuta como tecnologia social, a dificuldade de escutar é produzida institucionalmente. Resulta de modelos de gestão excessivamente medidos por números, de rotinas orientadas pela urgência e pelo improviso, e de arranjos de trabalho que transformam o encontro com as pessoas usuárias em procedimento, e não em atuação transformadora. Escutar mal, nesse contexto, não é um desvio individual e isolado, é produto de formação frágil e de processos de trabalho que não atendem a realidade das demandas.

Por isso, no campo das políticas públicas, mais especificamente no SUAS, precisamos nomear a escuta em sua dimensão técnica e política – a dimensão ética é importante, mas ela não pode muito (ou quase nada) sozinha. Escuta não é improviso, nem atributo pessoal. Escuta se aprende, se sustenta e se organiza como trabalho. Reconhecê-la assim é condição para reduzir violências institucionais, qualificar práticas e devolver às trabalhadoras e aos trabalhadores maior controle sobre o próprio fazer profissional.

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