Escutar não é gentileza, é atuação profissional
Hoje quero conversar com vocês sobre escutatória. O assunto central é escuta no contexto do SUAS como ferramenta de trabalho. Essa ideia não surgiu de repente, nem como resposta a uma demanda pontual, mas que vem sendo pensada há bastante tempo, atravessada por encontros, leituras, inquietações e trocas. Tudo começou quando colaborei com um texto para o Caderno do Trabalho Social com Família para o CapacitaSUAS/BA – texto Atuação da(o) psicóloga(o) na política de assistência social: notas sobre trabalho interdisciplinar no TSF (2021).
Posteriormente, essa ideia ganhou mais desdobramentos e começou a ganhar forma quando fui convidada para falar sobre ferramentas de intervenção no SUAS no curso de Psicologia da UFRB, por meio do grupo de pesquisa Práxis, a convite de Luane Santos, em 2021, salvo engano. Ao preparar o material, eu revisitei alguns textos, tinha recém reassistido ao filme 2001 – Uma Odisseia no Espaço (só eu sei consigo entender as conexões que faço com coisas aparentemente isoladas, mas posso me esforçar a contar uma hora). Além do filme, eu tinha lido O palhaço e o psicanalista: como escutar os outros pode transformar vidas de Christian Dunker e Cláudio Thebas (2021) publicado pela editora Paidós, e organizei minha fala inspirada e a partir de trechos deles, articulando com outras perspectivas do fazer profissional no SUAS e com aquilo que atravessa o trabalho social.
Depois fiz outra fala sobre isso em um outro evento e passei a introduzir reflexões sobre escuta de maneira mais consistente nas minhas falas, mas, no fundo, estava um projeto maior que era falar de maneira mais direta sobre escutatória e preparar algum material mais consistente para ser ofertado em forma de curso.
Depois dessas costuras e insights, algo ficou bastante evidente para mim: falamos muito sobre o que fazer no SUAS, mas quase nunca sobre como escutamos para poder atuar/intervir. O tempo foi passando e nada de conseguir tirar do papel essas ideias. Mas tudo tem seu tempo e acredito que esse tempo chegou. E agora não quero deixar passar essa oportunidade de atualizar o blog com um assunto tão potente para o fazer profissional no SUAS. espero que vocês gostem das ideias. Se não gostar, seria gentil de sua parte me mostrar sua justificativa.
Fiz questão de contar como essa ideia surgiu porque sou profundamente interessada em como o pensamento se constrói. Ideias não são atos solitários nem lampejos individuais. Elas são acúmulo de encontros, leituras, conversas, escutas e provocações. E, de repente: plim! Estamos produzindo algo que carrega marcas de tudo aquilo que nos atravessou antes. Nada do que fazemos nasce fora da relação. Pensamos porque estamos em relação: com pessoas, com práticas, com (con)textos e com perguntas que nos deslocam.
Talvez seja por isso que eu seja tão fã deste blog. Tudo o que escrevi aqui nunca foi escrito no vazio. Sempre foi provocado por comentários, discordâncias, perguntas diretas ou por insights que surgiam a partir de alguma troca. Este espaço sempre foi, para mim, um lugar vivo, em que escrever nunca significou apenas expor uma opinião, mas sim valorizar criações.
É por isso que quero abrir este texto lembrando uma filosofia africana que faz muito sentido para mim e para o que vou desenvolver aqui: Ubuntu — “eu sou porque nós somos”. Nada do que penso, escrevo ou proponho existe fora do coletivo. É a partir dessa compreensão relacional do conhecimento e do trabalho que quero falar de escutatória no SUAS.
O que é escutatória (e o que ela não é no SUAS!!)
Escutatória não é uma palavra minha. Ela vem de uma crônica de Rubem Alves, na qual ele reflete sobre como as pessoas desejam aprender a falar, mas raramente desejam aprender a escutar. Aprende-se oratória, retórica, persuasão; quase nunca se aprende a sustentar o silêncio, a espera e a abertura para o que o outro traz. Para Rubem Alves, a escuta aparece de forma poética e filosófica, associada à delicadeza e à experiência humana.
A minha perspectiva, no entanto, não é poética, mas é claro que eu reconheço a importância dessa inspiração. No campo do SUAS, e especialmente a partir da Psicologia, escutar não é apenas uma disposição subjetiva, humanizada como um gesto sensível. A escuta deve ser técnica, ética e é ferramenta de trabalho. Ela organiza a intervenção, orienta decisões, define encaminhamentos, constrói ou rompe vínculos, protege direitos ou os viola. No trabalho social, a escuta não é acessória: ela é central.
Quando falo em Escutatória no SUAS, estou falando da escuta como tecnologia viva, atravessada pela história pessoal e profissional de cada trabalhadora(r), pelas condições institucionais, pelos objetivos dos serviços e pelos limites reais da política pública. Estou falando de aprender a escutar para intervir melhor, e não para “humanizar” relações que já deveriam, por princípio, ser humanas.
As condições materiais do SUAS e a violência que se produz no cotidiano
Para que essa conversa seja honesta, precisamos partir das condições materiais e institucionais em que o SUAS vem sendo operado hoje, principalmente pós retomada da democracia brasileira que esteve por um fio para se romper mais uma vez. Um cenário marcado pela precarização do trabalho, pelo subfinanciamento, pela descontinuidade de serviços e, em muitos territórios, pela não garantia sequer da equipe mínima prevista nas normativas. Falamos de unidades funcionando com equipes incompletas, vínculos precários, alta rotatividade, sobrecarga ou subcarga e cobranças por resultados que não dialogam com processos de trabalhos mais qualitativos numa via por perspectivas analíticas.
Essa precarização não é pano de fundo. Ela organiza o cotidiano do trabalho social com famílias e outros serviços no SUAS. Quando não há equipe mínima, quando o financiamento é insuficiente, quando serviços são interrompidos por rotatividade de profissionais, o trabalho passa a ser regido pela administração da escassez e pelos imprevistos (nem tão imprevistos assim!). Isso produz sofrimento ético, desgaste subjetivo e práticas defensivas que, muitas vezes, se convertem em violência institucional contra as próprias pessoas usuárias da política.
Aqui neste espaço já escrevi bastante movida por indignação. Indignação ao ouvir psicólogas(os) dizendo que não sabiam o que fazer no SUAS para além de “entregar cesta básica”, sendo essa “tarefa” nem reconhecida como de atribuição de psi; Indignação ao ouvir/ver assistentes sociais perguntando/abrindo “o que tem na sua geladeira?” ou “por que não comprou comida com o dinheiro do Bolsa Família?”, “é melhor ir de surpresa porque essa informação dela não está batendo não”; Indignação ao escutar agentes sociais afirmando, com naturalidade, “essa mulher é malandra, já conheço o tipo”. Ao ouvir cuidadoras reclamando porque crianças falam palavrão. Ao ouvir gestão decretando que criança com TEA não pode participar do SCFV.
Essas falas não são raridades. Elas são, ainda bem recorrente, violências institucionais cotidianas em muitos espaços que deveriam proteger. E é preciso dizer com clareza: isso também é intervenção. Mesmo quando não se reconhece como tal. A forma como se fala, a forma como se escuta ou se deixa de escutar, produz efeitos concretos na vida das pessoas e na própria política pública.
Assim, penso que uma das maiores dificuldades na realização do Plano de Acompanhamento Familiar (PAF) e do Plano Individual de Atendimento (PIA), especialmente no que diz respeito à sua efetividade, reside na fragilidade da escuta nos serviços. Trata-se de uma afirmação dura, mas necessária: o SUAS ainda escuta pouco. As razões são muitas. Em muitos casos, falta preparo para escutar; em outros, mesmo quando há essa capacidade, os atravessamentos institucionais, as condições de trabalho e as exigências quantitativas operam como impeditivos, limitando a possibilidade de uma escuta efetiva e comprometida com as necessidades das pessoas e famílias acompanhadas e de seus territórios.
Escutatória como ferramenta de trabalho e de gestão
A escutatória não diz respeito apenas ao atendimento direto às pessoas usuárias(os). Ela atravessa também a gestão, a coordenação de equipes, a organização do trabalho e a forma como decisões são comunicadas, pactuadas ou impostas no cotidiano do trabalho. Escutar (ou não escutar) é também uma forma de exercer poder por dominação e de produzir determinados modos de trabalhar.
Na gestão, a escuta se expressa na maneira como prioridades são definidas, metas são estabelecidas, demandas são distribuídas e conflitos são tratados. A ausência de escuta tende a produzir gestões verticalizadas, burocráticas e defensivas, que naturalizam a sobrecarga, silenciam o sofrimento das equipes e reduzem o trabalho social a cumprimento de tarefas. Nessas condições, o trabalho se fragmenta, o sentido se perde e a política não se consolida como poderia.
Escutar, nesta proposta, não é “ser compreensiva/o” nem “acolher sentimentos” das equipes. É produzir mediações institucionais, reconhecer limites objetivos, pactuar possibilidades reais de trabalho e sustentar decisões de forma responsável. A escutatória, quando pensada também para a gestão, desloca a ideia de liderança como controle e a reposiciona como responsabilidade sobre o trabalho coletivo.
E o que eu quero fazer com essas ideias? Um curso de Escutatória no SUAS
Por que um curso de Escutatória no SUAS (e quais são seus limites)
O mundo é feito de contradições, e eu ocupo o meu lugar nelas. Ao longo desses anos, vi este blog ganhar terreno e meu pensamento amadurecer. Hoje, observo com preocupação a chamada “TikTokização” da nossa profissão e a explosão de cursos livres que circulam nas redes e plataformas digitais. Em muitos casos, esses cursos não representam avanço formativo, mas são expressão direta da precarização do trabalho e da ausência de implementação efetiva da Educação Permanente no SUAS.
Não sou contra cursos. O problema não é a existência deles, mas a naturalização de que a formação das trabalhadoras(es)/gestoras(es) do SUAS aconteça quase exclusivamente fora do Estado, de forma individualizada e mercantilizada. Os resultados da minha dissertação de mestrado (2024) evidenciaram o cenário crítico da falta de implementação da Gestão do Trabalho e da Educação Permanente no SUAS.
Por isso, é preciso acentuar que eu sei em que contexto eu proponho a Escutatória como uma oferta crítica de atualização ou formação. Assim, faço questão de marcar seus limites: escutatória não transforma a realidade estrutural, não resolve o subfinanciamento, não garante equipe mínima. Vivemos sob um capitalismo predatório e superexploratório, e isso precisa ser lembrado sempre. A escutatória não é promessa de sucesso individual nem solução mágica para a proteção social no âmbito do SUAS.
Proposta
O que o curso pode propor é preparar trabalhadoras(os)/gestoras(es) para atuar no SUAS com maior domínio do próprio fazer, com um fazer ético e diferencial, reduzindo danos institucionais e evitando que a frustração seja devolvida às famílias. Este não é um curso para “humanizar” o SUAS. É um curso para aprimorar a atuação profissional e fortalecer a capacidade de mediação para maior capacidade crítica de leitura da realidade.
Público Alvo
O curso será voltado para psicólogas(os), assistentes sociais, advogadas(os), gestoras(es), musicoterapeutas e demais profissionais de nível superior que compõem o SUAS. A participação de profissionais de nível médio está prevista para uma segunda turma, que ainda está em preparação.
Inscrição
Neste momento ainda não tem inscrição aberta pois vou terminar de preparar o curso depois de escutar vocês. Sim, eu já quero dialogar com quem tiver interesse em estar comigo nesta nova jornada. Se você se interessou pelo assunto, pela ideia da escuta como ferramenta para o fazer profissional nos serviços no SUAS, preencha o formulário e vem comigo fazer Escutatória no SUAS.
👉 Acesse o formulário de interesse no curso: Quero te escutar e saber do seu interesse!
Até breve!