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Antes de apresentar o texto proposto no título, deixa eu falar com vocês, porque quem é vivo, sempre aparece! Ainda bem!!
Depois de um bom tempo sem aparecer por aqui, volto com o coração cheio de entusiasmo para compartilhar uma nova contribuição. E é uma contribuição bem aguardada por mim. Sempre admirei o grupo que vou apresentrar à vocês hoje! Os últimos meses foram marcados por projetos, mudanças e desafios na vida profissional e, como acontece com muitas de nós no SUAS, às vezes é preciso se recolher um pouco para reorganizar, refletir e seguir em frente com mais consistência e sentido.
Mas a vontade de estar aqui, trocando, nunca desapareceu. E é com alegria que compartilho com vocês uma ferramenta que, espero, poder inspirar, apoiar e fazer sentido na prática na assistência social.
E aproveito para dizer que o projeto no Substack continua de pé! Vou escrevendo à medida que for possível, sem pressa, mas com muita vontade de seguir contribuindo. E como prometido: os textos e contribuições de utilidade pública continuarão com acesso 100% livre pelo BPS e pelo Substack, porque compartilhar conhecimento é, também, um ato político e um compromisso com o fortalecimento do SUAS.
Aproveito para agradecer ao Coletivo Articulando Redes, em especial, à Márcia Mansur, pela confiança em dividir essa contribuição por meio deste espaço potente e ainda necessário que nunca perde o jeitim especial de juntar gente do SUAS (ainda mais de Minas!!).
Tomara que a proposta circule, se espalhe, chegue a muitos territórios e que possa ser adaptada, reaproveitada e fortalecida por cada profissional que encontrar nela uma inspiração ou um ponto de partida.
Vamos ao texto:
A história de um território é, em essência, a história das pessoas que o habitam. Cada rua, praça e cada cantinho guarda memórias que, quando compartilhadas, fortalecem os laços comunitários e promovem uma compreensão mais profunda do coletivo em que vivemos. Uma maneira criativa e dinâmica de explorar essas histórias é através da construção de uma linha do tempo coletiva.
Esse texto apresenta a metodologia Linha do Tempo, uma ferramenta desenvolvida pela professora Márcia Mansur Saadallah, criada para fortalecer o trabalho com narrativas, memórias e vivências territoriais. . Desde a sua criação, a metodologia tem sido aplicada em diferentes contextos e projetos com o propósito de fortalecer vínculos, promover refl exões coletivas e valorizar as vivências locais. Nos últimos oito anos, o Coletivo Articulando Redes1 tem difundido e aprimorado essa prática em parceria com profi ssionais, comunidades e territórios da Proteção Social Básica e Especial do SUAS em Belo Horizonte e região metropolitana. Ao longo deste percurso, a Linha do Tempo tem se mostrado uma potente estratégia para estimular a participação e integração de pequenos grupos.
Utilizada em campanhas, eventos, ofi cinas e ações comunitárias, além de formações com profi ssionais da Assistência Social, a Linha do Tempo é uma técnica que possibilita versatilidade na execução para melhor adaptação ao contexto. Pensando nos objetivos da política, especialmente nos objetivos que tange às ações desenvolvidas pelo Serviço de Proteção e Atendimento Integral à Família (PAIF) e no Serviço de Proteção e Atendimento Especializado a Famílias e Indivíduos (PAEFI), esta técnica visa o fortalecimento dos vínculos familiares e comunitários, a promoção da escuta e valorização das histórias de vida das/os usuárias/os. Também favorece a promoção do acesso a direitos e a formação de territórios mais protetivos.
Essencialmente pensada para o trabalho com grupos, a partir da partilha de relatos e da reconstrução das trajetórias pessoais, os participantes ampliam sua compreensão sobre suas próprias histórias, além de compartilharem vivências comunitárias e territoriais. Nas experiências do Coletivo Articulando Redes, a Linha do Tempo é o primeiro momento de integração do grupo: é a acolhida, o início da formação de laços, quando cada pessoa ainda não se reconhece parte de um coletivo. Cada participante chega com suas próprias ideias, sentimentos e objetivos para o encontro – memórias que, juntas, começam a compor uma narrativa comum.
Para facilitar a compreensão e a replicação da técnica, apresentamos abaixo uma fi cha ilustrada com o passo a passo detalhado de sua aplicação.
A partir das histórias individuais, tecidas no chão comum do território, criam=se histórias coletivas. Ao organizar as narrativas e os acontecimentos em uma sequência temporal, começa a ganhar sentido o território vivido pois se encontram na similaridade com a história do outro, no reconhecimento de cenários, nos fatos históricos, nas lutas comunitárias, nas desproteções e riscos, nas proteções e potencialidades, na solidariedade e no comum. Dessa forma, a ferramenta fortalece o sentimento de pertencimento e os vínculos entre os sujeitos, estimulando o diálogo, a troca de saberes e a valorização das histórias de cada indivíduo. Isso permite que compreendam seu papel dentro do grupo ou comunidade, contribuindo para a construção e o fortalecimento de uma identidade coletiva (KOGA, 2011).
O uso da Linha do Tempo enquanto uma técnica para trabalhos comunitários também contribui para a formulação de estratégias mais alinhadas às realidades locais. Ao registrar memórias e vivências em determinado espaço, é possível compreender melhor as transformações dos territórios e as necessidades das comunidades, possibilitando intervenções mais efi cazes e colaborativas.
Quando um grupo de pessoas se reúne para discutir seus problemas, muitas vezes sentidos como exclusivos de cada um dos indivíduos, descobrem existirem aspectos comuns, decorrentes das próprias condições sociais de vida; o grupo poderá se organizar para uma ação conjunta visando a solução de seus problemas. E aquelas necessidades, que sozinhos eles não podiam satisfazer, passam a ser resolvidas pela cooperação entre eles. (LANE, 2006, p. 69)
Sendo assim, acredita-se que esta técnica também possibilita o que se pode chamar de “micro-vigilância”, ou seja, a análise e diagnóstico mais próximo da situação e realidade do território e suas ruas, bairros e vizinhanças para intervenções mais apropriadas aos contextos. A Linha do Tempo pode ser um importante disparador de refl exões que se desdobram em ações e realizem possíveis transformações.
O se defrontar com os outros, o se descobrir diferente, único e, ao mesmo tempo, assumir a igualdade de direitos e deveres, a responsabilidade de pensar, de decidir e de agir, é um processo que se desenvolve através de práticas e refl exões sucessivas. Não há receitas, nem técnicas pré-defi nidas, cada grupo desenvolve um processo próprio, em função das suas condições reais de vida e das características peculiares dos indivíduos envolvidos. (LANE, 2006, p. 70)
Como toda ação dentro do SUAS, é necessário uma equipe técnica comprometida com uma atuação que ultrapasse o emergencial e a concessão de benefícios. A partir da escuta atenta, da valorização do saber comunitário e do acolhimento das histórias e realidades de vida, é possível uma intervenção que leve em conta a participação e o controle social.
Os homens se fazem homens na práxis. […] O que os distingue dos animais é exatamente esta capacidade de se distanciar de sua atividade para contemplá-la e transformá-la, tornando-se assim sujeitos de sua própria história. (FREIRE, 1987, p. 47).
Rereferências
FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 17. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987. KOGA, Dirce. Medidas de cidades: entre territórios de vida e territórios vividos. 2 ed. São Paulo: Cortez, 2011. LANE, Silvia T. Maurer. O que é psicologia social / Silvia T. Maurer Lane. — São Paulo: Brasiliense, 2006. — (Coleção primeiros passos; 39)
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