A morte de um menino de 04 anos no estado do Rio de Janeiro, enteado de um parlamentar, está em pauta não somente pela identificação do padrasto (agente público) e da mãe como suspeitos do crime, mas também pelas razões que já conhecemos como a midiatização de casos envolvendo crianças brancas e ricas[i].

Quero, portanto, discorrer por um viés que considero urgente ser pautado, uma vez que, entendo que não basta apenas evocar a escuta de crianças e adolescentes quanto aos sinais e comunicação de situação de violência, é preciso romper a blindagem classista quanto a organização de vida das pessoas. São relações sociais pautadas na lógica do condomínio[ii]. Nas quais, a desigualdade não é um problema, pelo contrário, ela é almejada. Quanto mais alto o muro, mais chances para a dissimulação sobre situações de violência intrafamiliar contra crianças e adolescentes.  

A blindagem é facultada pela lógica do condomínio que se espraia pelas instituições de ensino, serviços públicos e privados. Tem-se, assim, uma rede de pessoas e instituições “aparelhadas” para agir em prol da dissimulação ou amenização dos sinais identificados ou suspeitos de violência. Às famílias ricas, o lugar da defesa e da relativização do mal. Não é incomum encontrar aliados para encobertar situações de violência, porque, culturalmente e financeiramente, são essas famílias que ditam o que é uma sociedade do bem onde vivem, pactuando relações de poder.

Crianças e adolescentes estão tão falsamente protegidos, que são violentadas sob a blindagem institucional, midiática, cultural e histórica nessa sociedade dividida em classes. Para quem pode se esconder, a lei não lhe diz respeito, até porque eles ocupam assentos nos bancos de criação e aprovação de leis que só servem aos pobres, classe de pessoas com eminente potencial de ameaça e perigo.

Meninas e meninos ricos continuam sendo crianças. Quando as crianças nada podem contra a lógica violenta e perversa na qual estão submetidos, a morte pode ser a única ação capaz de furar a blindagem. A morte de crianças, nessas circunstâncias, é um desfecho perturbador porque rompe fendas hipócritas, fendas nas violências institucionais – não é à toda que a prisão de autores, cujo passo-a-passo da justiça e demais órgãos de investigação, é dramaticamente cinegrafada e midiatizada. A diferença do tratamento e mobilização, escancara um sistema que é indiferente aos corpos violentados ou mortos de meninas e meninos pretas e pobres que são considerados estatísticas[iii].

Todo o esforço é para fechar a fenda que insiste em romper sob os pés daqueles que criam relações sociais segregadoras. A justiça deve ser exemplar porque não deve haver dúvidas sobre a punição à ovelha desgarrada. – à reconstituição do crime, todo esforço. Aos ricos, o autocercamento e a pseudo vida plena, aos pobres, a vigilância e a indiferença[iv].

Às crianças, discorro esse pequeno texto por indignação e pela tentativa de desblindar pensamentos e posturas dissimuladas de quem deveria proteger e enfrentar toda situação de violência contra crianças e adolescentes. Indignação porque não dá para silenciar num país onde “todos os dias, 32 crianças e adolescentes morrem assassinados”. 


[i] Termo genérico contemplando famílias de classe média e alta e muito alta (considerando por renda). Não cabe neste texto, mas é bom marcar que se sabe que nas elites, burguesia e oligarquia, as ações de prevenção, proteção e enfrentamento à situações de violências são muito mais impenetráveis.

[ii] Conceito criado pela psicanalista e pesquisador, Christian Dunker.

[iii] No Brasil, todos os dias, 32 crianças e adolescentes morrem assassinados https://www.unicef.org/brazil/homicidios-de-criancas-e-adolescentes

[iv] Mais de 100 dias sem resposta sobre os três meninos desaparecidos de Belford Roxo –  https://brasil.elpais.com/brasil/2021-04-12/90-dias-sem-resposta-sobre-os-tres-meninos-desaparecidos-de-belford-roxo.html


Disque 100 - Disque Direitos Humanos - Disque Denúncia Nacional - Centro de  Apoio Operacional das Promotorias da Criança e do Adolescente

6 comentários

  1. Excelente reflexão, Rozana! 👏👏👏 Meninas e meninos pretos(as) e pobres pagam o preço no tratamento da indiferença nesse país. ✊✊✊

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  2. Realmente eu refletia por esse ângulo de pensamento. Texto muito claro e que expõe as situações de desigualdade a qual todos somos submetidos, e as crianças acabam por ser as principais vítimas. Parabéns pela reflexão.

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