Reconhecendo o dia Mundial de Prevenção ao suicídio que ocorre a cada 10 de setembro, a Campanha do Setembro Amarelo criada no Brasil em 2015 pela Centro de Valorização da Vida – CVV – conjuntamente com o Conselho Federal de Medicina – CFM e com a Associação Brasileira de Psiquiatria – ABP, propõe atividades ao longo do mês e vem ganhado destaque a cada ano.

A alta adesão das organizações públicas, privadas e da sociedade civil como um todo à campanha é um resultado bem previsível considerando o contexto da disseminação da comunicação pelas redes sociais digitais das agendas coloridas e o momento onde ações de serviços pelo viés neoliberal ganha cada vez mais palco. Outro fato que vale a pena mencionar é o reconhecimento institucional-público-político e ético aos discursos dessas instituições que criaram esta campanha, como o CFM e a ABP. Elas, ainda, representam a hegemonia epistemológica e paradigmática na saúde pública.

Nesta direção crítica quanto a popularidade de algumas campanhas cromo-temáticas, vale uma menção à campanha Setembro Verde, campanha também criada em 2015 pela FEAPAES-SP – Federação das APAES do Estado de São Paulo e a APAE de Valinhos. De acordo com o site APAE Brasil[i]“A Campanha Setembro Verde é inspirada pelo dia 21 de setembro, data em que se celebra o Dia Nacional de Luta das Pessoas com Deficiência, instituído pela Lei Federal nº 11.133, de 14 de julho de 2005. Setembro foi escolhido também por ser o mês da primavera e pelo fato de o dia 21 ser celebrado como o Dia da Árvore – uma representação do nascimento das reivindicações de cidadania e participação plena em igualdade de condições”.

As redes sociais digitais não deixam engano ao evidenciar que a referida campanha não ganhou popularidade e nem visibilidade nacional como as outras da área da saúde – Outubro Rosa, Novembro Azul e Janeiro Branco são as mais populares.

Condições teórico-práticas à prevenção ao suicídio

Confira no final do texto o link para acesso a uma lista com sugestões de materiais para estudo!

A reflexão proposta é que a adesão a qualquer umas dessas campanhas seja mediada pela crítica a fim de possibilitar elaboração e implantação de medidas locais que possam responder a anseios e lacunas reconhecidamente plausíveis.

Em políticas como assistência social e educação, onde comportamentos suicidas, suicídio e posvenção não fazem parte de temáticas tradicionalmente consideradas na formação da maioria das(os) profissionais que nelas atuam, para replicar esta campanha, assim como todas as outras das agendas coloridas, vale uma reflexão ainda maior, para que as ações sejam consistentes e não se tornem reprodutoras de discursos hegemônicos que em nada ou pouco contribuem para o contexto de prevenção e proteção.

Em uma enquete rápida no perfil BPS no Instagram @psicologianosuas, oitenta e quatro por cento (84%) das(os) trabalhadoras(res) não se sentem preparadas(os) teórica e tecnicamente para atuarem na prevenção ao suicídio. – A enquete foi respondida por 394 pessoas – ficou disponível por 24 horas entre os dias 10/09 e 11/09/2020. Portanto, defender e colocar em prática as Políticas Nacionais de Educação Permanente do SUS, SUAS e educação, assim como de outras políticas públicas se faz urgente! E isso precisa ser debatido o tempo todo. O agravante é que com a ausência dessa questão como pauta no escopo da campanha, perde-se tempo com ações sem potencial de impactos para a baixa dos casos de suicídio, bem como para garantir cuidado para milhões de pessoas com comportamento suicida e para as suas famílias.

Setembro amarelo: o que cabe ao SUAS?

Quais informações estão sendo multiplicadas? Como as pessoas as recebem? O que as pessoas podem fazer com elas?

A informação é um direito e uma estratégia reconhecidamente útil para o acesso das pessoas aos meios de cuidados e para superarem barreiras socioculturais e estruturais que impedem o direito às medidas de prevenção e tratamento. Contudo, é preciso vir acompanhada de estratégias para acolher e direcionar o que pode surgir após a comunicação.  E é justamente aqui que percebo uma inversão da pirâmide. As políticas públicas não sabem muito bem o que fazer e nem contam com equipes preparadas e em quantidade suficiente para atuarem nos casos que demandam atendimento especializado e com isso lançam massivamente cortinas de fumaça colorida que funcionam como uma ilusão de que as equipes e os serviços estão preparados para a prevenção e o cuidado. É como se você fosse a uma festa de aniversário e só tivesse a decoração, sabe?

Questionar a campanha e as ações em alusão ao dia Mundial de Prevenção ao suicídio não é tirar a relevância de ambas, trata-se, sobretudo, de considerar que o suicídio é do campo da saúde pública e também de toda política pública, assim como é da sociedade – o trabalho do CVV é um exemplo de como a sociedade organizada é capaz de dar respostas com alta capacidade de alcance, por isso deve ser tratado com rigor ético, teórico e prático.

A campanha de prevenção ao suicídio pode ser realizada com ações e programas dissolvidos ao longo do ano nas agendas das políticas públicas. É válido nomear e enfatizar ações, mas mais importante ainda para nós da assistência social é reconhecer que o acesso aos direitos fundamentais e a mediação das condições de convivência e de vivências entre os humanos e tudo o que pertence a este universo, são garantias de que a vida e os laços sociais podem ser cada vez mais cuidados e valorizados.   

Quer entrar na roda da prevenção ao suicídio mais preparada(o)? Veja na página Materiais de estudo para qualificação das ações de prevenção ao suicídio, anexa deste texto, a lista de alguns livros, vídeos e artigos que separei para vocês irem estudando. Tem também o link para inscrição no curso livre Ead (gratuito) sobre Prevenção ao suicídio ofertado pela UNA-SUS e UFSC. Clique aqui

Bons estudos e vamos juntes extrair flores de pedras[ii]


[i] https://apaebrasil.org.br/noticia/campanha-setembro-verde-celebra-o-mes-oficial-da-inclusao-da-pessoa-com-deficiencia-intelectual-e-multipla

[ii] https://www.youtube.com/watch?v=8PY5nzi5pdk&list=PLKmcQCW0xjAm6WLN3A7iQvFkJzHAM_Ldv&index=6&t=634s

Obrigada a todas(os) que contribuiram com a enquete!


Esta imagem possuí um atributo alt vazio; O nome do arquivo é image-2.png

Sobre o autor Rozana Fonseca

Psicóloga - CRP03/6262, especialista em Gestão Social:Políticas Públicas,redes e defesa de direitos. Autora do Blog Psicologia no SUAS, palestrante, supervisora técnica e consultora acerca da execução de políticas públicas como Assistência Social, criança e adolescente, idosos, mulheres e sobre a atuação do profissional de psicologia nas políticas públicas em geral.

Comentários

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: