Por Rozana Fonseca e Joari Carvalho

Situações de calamidades públicas requerem ações emergenciais de cobertura imediatas correspondentes e proporcionais ao efeito da ameaça como forma de redução desastres com seus danos e prejuízos. A assistência social prevê estrategicamente benefícios eventuais em calamidades como parte dessas respostas nas primeiras ações, como o direito uma proteção social da(o) cidadã(o) e de sua família, que estejam vivenciando situação de vulnerabilidade e/ou risco social que impedem autoprovisões essenciais para a sobrevivência.

Mas, com exceções que merecem ainda mais reconhecimento no contexto sombrio, o que temos vivenciado nas principais respostas iniciais  à demanda de proteção social foi repetidamente sua limitação à distribuição em massa de cestas básicas com metodologias propositalmente improvisadas, muitas vezes inseguras, duvidosas e autoritárias, deixando a interrogação sobre se o assistencialismo de fato esteve em declínio com o Sistema Único de Assistência Social – SUAS ou se alguns atores e organismos governamentais e não governamentais saudosos do efeito de concentração de poder e visibilidade política de tais práticas aproveitaram o momento para avançarem o projeto de retrocesso e redução da capacidade estatal. Visto que, desmontar institucionalmente, pelo SUAS, a politicalha na execução da oferta de direitos sociais que são amparados por legislação, ainda não foi capaz de trazer à luz a autonomia política dos sujeitos e dos territórios quanto aos objetivos da Política de Assistência Social, abre-se o grande precedente da necessidade inadiável de avaliar o trabalho teórico-prático na assistência social.

É uma obrigação indagar por que parece não ter tido a devida relevância a proteção social profissionalizada, para tomadores e tomadoras de decisão dos governos e para grande parte dos corpos técnicos, administrativos, operacionais e de controle social da própria assistência social, mesmo após quase duas décadas da implantação de um sistema que tem por objetivo profissionalizar as ações.

Quais referenciais teóricos e quais práticas na proteção social na assistência social seriam mais aliadas na consolidação da rede socioassistencial, com em relação à participação social, que fica inviabilizada com o retrocesso das práticas assistencialistas? A articulação entre gestores, operadores e destinatários da rede é fundamental, mas antes disso há necessidade de recapitular ou repactuar um projeto em que os consensos necessários sejam maiores que os dissensos no que se refere ao trabalho interdisciplinar e integral com a comunidade e com as demais políticas públicas.

Um dos eixos estruturantes do SUAS, a matricialidade sociofamiliar, tem sobressaído com um corpo prático-metodológico remanescente ainda da perspectiva familista como um conceito prático conservador e estratificado de família que sustenta ações mais de patrulhamento das pessoas do que de promoção da emancipação, revelando uma hierarquia nas ações do trabalho social com famílias. Com o foco nas famílias, a territorialização e os demais eixos matriciais do SUAS ficam desencontrados, tendo um marco legal que reflete em grande medida reivindicações democráticas, de justiça social e dignidade, mas culminando com práticas unilaterais, comumente embasadas no senso comum mais moralista do que profissional, pouco eficientes em termos de defesa de direitos, com baixa capacidade de conhecer as potências da comunidade.

Assim, sobretudo diante deste cenário assustadoramente contraditório que a pandemia agravou e revelou sobre a assistência social, profissionais de categorias de referência do Suas, pesquisadores, gestores, conselheiros, ativistas, movimentos sociais e outros atores sociais precisam abrir espaço para práticas participativas e para um SUAS mais (com)validado, efetivo e presente no cotidiano.

Com este tema Perspectivas teóricas e práticas participativas para a assistência social após a pandemia, vamos realizar um Sextas Básicas especial onde teremos três convidas, Luane Santos, Lídia Lira e Marina Leandrini.

Para conhecer o projeto Sextas Básicas e ver a lista com todos os vídeos das edições já realizadas, clique aqui

Luane Santos – Psicóloga e mestre em Psicologia pela (UFBA), Doutora em Educação: Psicologia da Educação pela (PUC-SP), integrante do grupo de pesquisa “A Dimensão Subjetiva da Desigualdade Social: suas diversas expressões” e autora do livro “A Psicologia na assistência social: convivendo com a desigualdade” (Editora Cortez). Atualmente é professora adjunta da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia

Lídia Lira – Pedagoga, atua na Educação, Assistência social e Saúde, consultora do COEGEMAS PE, assessora da Rede Estadual de Enfrentamento a violência Sexual contra Crianças e adolescentes – PE, Ativista de Direitos humanos.

Marina Leandrini de Oliveira. Terapeuta Ocupacional, professora na Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM). Dedicou seu doutorado, pelo PPGTO/UFSCar, no estudo das práticas de terapeutas ocupacional no SUAS.

Coorganizadores do encontro virtual:

Joari Carvalho – Psicólogo social – CRP 06/88775. Atua no órgão gestor da assistência social de Suzano – SP. Mestrado em psicologia social. Ex-colaborador convidado da Comissão Nacional de Psicologia na Assistência Social do CFP (2018 e 2019) e ex-conselheiro membro do Núcleo de Assistência Social e do Núcleo de Emergências e Desastres do CRP- SP (2009 a 2016). Coorganizador do Sextas Básicas e mediador dos encontros virtuais.

 Rozana Fonseca, criadora do Blog Psicologia no SUAS O ponto de encontro para quem constrói o SUAS, é a anfitriá e tem a honra de materialziar o lema deste espaço que é agregar todas e todos que se debruçam à construção do SUAS.

Link para assistir ao Sextas Básicas #9 Canal do BPS no Youtube ou clique no vídeo abaixo.

Assista também aos últimos Sextas Básicas

Lista completa com os vídeos dos encontros virtuais já realizados:

  1. Sextas Básicas #1 – Contribuições e desafios de profissionais do Suas para a proteção social
  2. Sextas Básicas #2 – Planos de Contingência da Assistência Social
  3. Sextas Básicas #3 – Segurança e saúde do trabalhador e da trabalhadora do Suas durante e depois da pandemia
  4. Sextas Básicas #4 – Impactos e caminhos do trabalho com famílias, a convivência e o fortalecimento de vínculos na proteção social básica
  5. Sextas Básicas #5 – A contribuição da gestão integral para a redução de riscos de desastres na política de assistência social
  6. Sextas Básicas #6 – Violação de direitos e proteção social de povos e comunidades tradicionais
  7. Sextas Básicas #7 – Avaliação da Assistência Social na situação de contingência como instrumento de afirmação do SUAS
  8. Sextas Básicas #8 – O preço social da pandemia para a população negra e a periferia

2 comentários

  1. Rozana, as Sextas Básicas já rendeu um projeto de parceria com a sociedade civil aqui no nosso Município. Esta Live foi muito inspiradora para mim. Parabéns por sua visão. Silvana Martuscelli

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  2. Boa tarde, Rozana.

    Acompanho o blog e aprecio demais a contribuição dos textos para nossa prática profissional. Eu participo de equipes com profissionais muito competentes que conseguem perceber com clareza essas nuances do trabalho com as famílias e resistem aos retrocessos, propõem discussões e reflexões e ações pautadas nos princípios do SUAS.

    Mas, muitos de nós simplesmente estão adoecendo de forma aguda nessa pandemia. Praticamente todas as orientações saíram depois de muitos dias, algumas muito vagas. Quem está na ponta ficou à mercê e teve que resistir de forma isolada, quando muito em pactuação com os colegas de trabalho locais ou regionais. Assédio moral, pressão política, escassez de equipe, de acesso à tecnologia no contexto macro de desmonte que é bem conhecido de todos. Muitos de nós colocados sob risco de contaminação constante.

    Refletir, problematizar o trabalho não deveria estar se tornando um privilégio, mas de fato já é. Somos silenciados e submetidos a baixos salários, responsabilidades acumuladas, enquanto os grandes coletivos e conselhos regionais concentram as ações nos grandes centros urbanos e se tornaram inacessíveis ao trabalhador do interior.

    Os colegas mais competentes com quem atuo já elaboram planos de saída do SUAS, confesso que também é o meu caminho. Não porque não acreditam nos seus princípios enquanto política pública, mas por conta da preservação da própria saúde física e mental.

    Muito obrigada pela sua contribuição. Ela é um alívio e a certeza de nossa sanidade em tempos tão sombrios.

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