O dia 8 de março é o Dia Internacional   da Mulher. Começo este texto desfazendo uma equivocada ideia acerca da origem dessa data, espalhada por vários meios de comunicação, principalmente textos pela internet e jornais físicos ou digitais.

A explicação comumente dada é que se trata de uma data que faz referência ao incêndio ocorrido no dia 25 de março de 1911 na Triangle Shirtwaist Company, em Nova York, onde 146 pessoas morreram, em sua maioria mulheres. Eu aprendi que essa não é a verdade sobre esta data, a qual tem um cunho muito mais político e social do que a população insiste em negar. Aprendi com a socióloga Eva Blay ao ler seu ensaio 8 de março: Conquistas e Controvérsias, em meados de 2012, quando divulguei este artigo no blog e propus um debate acerca das atividades que são feitas nas unidades da Assistência Social em alusão a esta data. Por algum motivo este texto foi perdido e só tem o vídeo da transmissão on-line que fiz através do Youtube (se você quiser conferir pode ir lá no Canal, mas lembre-se que se trata de um vídeo ao vivo, então reserva um tempinho e um caderno para anotar as poucas partes relevantes 😊).  

Para Eva Blay o dia fora proposto por Clara Zetkin já em 1910, sendo possível inferir que decorrida a tragédia se potencializou a necessidade de discutir as precárias condições das mulheres em relação ao trabalho. Sendo, portanto, uma data que marca as lutas das mulheres por igualdade de direitos.

O Dia Internacional da Mulher só foi oficializado em 1975, pela ONU, lembrando suas conquistas políticas e sociais.

No Brasil, é evidente uma menção comercial da data e uma alusão rasa ao ser mulher. Normalmente são atribuídos adjetivos que em nada colaboram com as lutas políticas e sociais das mulheres: forte, guerreira, edificadora do lar, educadora… A lista é bem extensa, mas estes adjetivos já ajudam com a reflexão de como essa data é tratada com um viés liberal e comercial.

Vale, portanto, reforçar que a data 08 de março é fortemente atrelada às lutas dos movimentos sociais e feministas.

Então, chegou a hora de marcar o objetivo deste texto: fazer com que as profissionais das equipes do SUAS e de outras políticas públicas que passarem por aqui, reflitam e mudem a perspectiva sobre esses eventos em referência ao dia 08 de março que são comumente realizados nos serviços e comunidade como dia da beleza, palestra de autoestima e atividades que reforçam a ilusão de mulher guerreira.

A Política de Assistência Social tem um significativo apelo às mulheres e sabemos como é fácil reproduzir desigualdade de gênero ao invés de combatê-la, portanto, faz-se necessário refletir que se esse tema fosse tratado como agenda ao longo do ano, as equipes não teriam muita dificuldade em propor atividades mais politizadas e fecundas.

Assim, a proposição aqui é que se trabalhe ao longo do ano temas em relação aos direitos das mulheres e inclusive contemplando as meninas (crianças e adolescentes) dos serviços, visando agregar atividades e superar aquelas que mencionei como rasas e meramente comerciais.

Não é demais pontuar que cada atividade deve ser avaliada conforme o contexto de cada microrregião e que essa lista só tem como meta ser um disparador de ideias e mostrar o quanto se pode fazer muito mais do que esses eventos superficiais, inconsistentes e de que em nada reivindicam posicionamento teórico-técnico das profissionais do SUAS.

Sugestões de atividades politizadas para o dia 08 de março nos CRAS, CREAS e demais unidades de serviço da Assistência Social:

  1. Formação das trabalhadoras/res do SUAS

A gestão precisa contemplar a formação sobre gênero no rol das capacitações promovidas pela Educação Permanente – EP e sabendo que as mulheres formam a maioria das equipes que gerenciam e operacionalizam o SUAS (este que tem as mulheres como a maioria das participantes), faz-se urgente problematizar e formar novas possibilidades de leituras e intervenções no contexto contraditório da proteção social no campo da Assistência Social e das demais políticas transversais.

Cabe, então, considerar o fato de que as duas profissões mais presentes na Assistência Social são “femininas”: a Psicologia tem 89% de profissionais mulheres e o Serviço Social é composto por 93,7% (dados PNAD 2007).

Destaco que a falta de implementação da PMEP não deve inviabilizar atividades destinadas às mulheres trabalhadoras do SUAS, assim, pode ser realizada uma Palestra ou Oficina sobre movimentos sociais feministas; sobre mulheres e relação com o trabalho de cuidar, este muito atribuído ao feminino.

  • 2) Conselho Municipal dos Direitos da Mulher

Momento para realizar um evento no formato de Fórum ou outro mais adequado a cada realidade e possibilidade, sobre a formação do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher e no caso do mesmo já estar implantado, vale um evento para avaliar seu funcionamento e como está seu alcance junto a sociedade e instituições públicas e privadas. Bom lembrar que seria um excelente momento para avaliar e monitorar as deliberações da última Conferência Municipal.

  • 3) Movimentos Sociais e as Conquistas Femininas

Oportunidade para discutir o alcance dos direitos políticos e sociais das mulheres ao longo da história do Brasil, principalmente no século XX e como as mulheres podem refletir sobre os lentos avanços e necessidade de mais mobilização para que a condição da mulher na sociedade continue sendo transformada em direção a igualdade de gênero.

Considero interessante aproveitar o evento para evidenciar mulheres que foram/são fundamentais nas lutas de emancipação e visibilidades dos direitos das mulheres, bem como daquelas que lutam denunciando as desigualdades ainda tão arraigadas na sociedade. Estou fazendo uma lista das mulheres e projetos feministas que me inspiram e em breve divulgo aqui com vocês!

Você pode trocar o dia da beleza pelo dia de homenagens às mulheres que fazem a diferença no seu território!

  • 4) Mulher e Maternidade

Atividades como Rodas de Conversa e Oficinas são uma boa opção metodológica para tratar desse tema com as usuárias dos serviços. Como essas mulheres vivenciam o cuidado com os filhos ou com a opção de não tê-los? As mulheres pobres podem dizer não à maternidade? E quando dizem não, qual o preço elas têm pagado? É bem provável que as têm custado a saúde mental e sobrado muita violência institucional.

Este tema pode e deve ser adaptado para as especificidades de cada serviço do SUAS, por exemplo, é uma boa sugestão para a Proteção Social Especial trabalhar com as famílias/mulheres das crianças e adolescentes que estão em situação de acolhimento institucional e na Proteção Social Básica, possibilidade de trabalhar com mulheres e a sobrecarga nos cuidados com os filhos.

  • 4) A Representação das Mulheres na Mídia e nos Espaços Sociais  

Propor uma atividade para reflexão e sensibilização acerca do discurso subjugador das mulheres realizado pelas mídias (principalmente propagandas). Em todas as sugestões é preciso fazer o recorte acerca da desigualdade e invisibilidade da mulher negra e nesse, me parece, ser uma importante maneira de avaliarmos a falta de representatividade da mulher negra na TV e nos outros meios de comunicação. Quem diz o que sobre as mulheres negras? Quando e como elas são representadas; como são ouvidas? Se são ouvidas!

Considerando a primazia do universo do brincar na constituição da subjetividade, que tal levar as meninas do Serviço de Convivência em uma loja de brinquedos da cidade e discutir representatividade e o que elas sentem sobre não enxergarem a si mesmas e nem os seus?

  • 5) Aspectos Socioculturais que Interferem Negativamente na Saúde Mental da Mulher

Palestra com uma profissional da Saúde Mental ou da Rede de Atenção Psicossocial que aborde a perspectiva psicossocial e da desigualdade de gênero nas manifestações de sofrimento mental.

Penso neste tema porque uma passagem como esta da bíblia, do antigo testamento, reverbera até hoje causando sofrimento mental em mulheres.

“A mulher, quando tiver o fluxo de sangue, se este for o fluxo costumado do seu corpo, estará sete dias na sua menstruação, e qualquer que a tocar será imundo até à tarde. Tudo sobre que ela se deitar durante a menstruação será imundo; e tudo sobre que se assentar será imundo” (Levítico 15:19-20). …“Não te chegarás à mulher, para lhe descobrir a nudez, durante a sua menstruação” (Levítico 18:19).

  • 6) Mulher, você está cansada de quê?

Esta Oficina pode ser a primeira etapa da atividade proposta a seguir com os homens/meninos.   

Discutir sobre machismo estrutural e relacionamento abusivo. A ideia é facilitar e mediar a identificação do machismo vivenciado no dia-a-dia pelas mulheres, porque sabemos que ao longo dessa relação desigual, é muito comum a banalização e a naturalização do machismo e da relação abusiva.

Para tornar a oficina mais prática e proveitosa é importante garantir uma atividade paralela com as crianças que estarão acompanhando as mães – é bom que elas sejam avisadas sobre isso.

  • 7) Da vergonha à denúncia  

Roda de Conversa com Mulheres que já foram vítimas de violência, onde elas serão as protagonistas na condução do debate. Pode ser direcionado para as usuárias do SUAS ou fazer um evento mais aberto e público utilizando a Câmara de Vereadores, mobilizando instituições e população em geral.

 O tipo deste evento dependerá do quanto essas mulheres já estão engajadas e consideram a importância do protagonismo e autonomia para a disseminação e mobilização de outras mulheres quanto a possibilidade de superação da situação de violência.

E os homens? Não deem flores, façam o jantar!

  • 8) Oficina onde está seu machismo? (tem um pessoal chamando de masculinidade tóxica!) eu prefiro chamar de machismo mesmo.

Proposta: realizar em 3 encontros. No mínimo em 2.

Primeiro encontro: realizar uma palestra interativa, apenas para os homens, com o tema do machismo e a hegemonia do patriarcado na sociedade – lembrando de adequar à realidade de cada região.

Segundo encontro: os homens retornam para a oficina para expor e debater as observações quanto a identificação de pensamentos e atitudes machistas ao longo do período (no ambiente familiar, escola, igreja, bar, trabalho…) – poderá ser por meio de registro escrito, falado, desenho, ou recortes – deixar livre para o grupo ou cada homem escolher a forma de registro da maneira mais conveniente ou possível para cada um.

Terceiro encontro: Neste momento participa toda a família, onde o objetivo é socializar os resultados das discussões e reflexões.

Espero que estas recomendações possam contribuir com um fazer mais crítico e propositivo no dia 08 e março e quero concluir este texto falando com as/os gestoras/es da Assistência Social.

Gestora/coordenadora, obrigada por ler este texto até aqui! Aproveito para enfatizar que é preciso deixar que a equipe de profissionais dos serviços elabore as atividades do dia/semana da Mulher. Elas podem e devem fazer isso. Se não conseguirem, garanta e promova capacitação para sua equipe, urgentemente.

Sabe, gestora, gestor, não dá para promover autonomia, protagonismo e romper com a desigualdade de gênero se as mulheres que compõem a linha de frente estão reproduzindo e sendo vítimas dessas mesmas estruturas diariamente.

8 de março é dia de luta. Dia de luta é todo dia para as mulheres!

Resultado de imagem para nenhuma a menos
https://vimeo.com/301944748

Referência:

BLAY, EVA ALTERMAN. 8 de março: conquistas e controvérsiasRev. Estud. Fem., 2001, vol.9, no.2, p.601-607

Imagem: “Parede da memória”, Rosana Paulino (Foto: Isabella Matheus) https://www.sp-arte.com/editorial/ser-artista-negra-o-olhar-de-rosana-paulino-sobre-passado-presente-e-futuro/

Estou usando a imagem do trabalho da artista Rosana Paulino para apresentá-la a vocês e já aguçar a curiosidade sobre a lista que estou montando com as mulheres inspiradoras e que em breve vou compartilhar com vocês aqui!

Rosana Paulino (São Paulo, 1967). Artista visual, pesquisadora e educadora. Sua produção tem como foco questões sociais, étnicas e de gênero, destacando-se a discussão sobre o local simbólico social ocupado pelas mulheres negras no Brasil. É doutora em Artes Visuais e bacharel em Artes pela ECA-USP. Possui obras em importantes museus tais como MAM-SP, Masp e UNM – University of New Mexico Art Museum (EUA). Participou de diversas exposições no Brasil e no exterior.

6 comentários

  1. Estive hoje o dia inteiro 28 de ferveiro de 2020 com a pessoa de Rosana Fonseca a maravilhosa capacitação de alinhamento conceitual e prático dos serviços, benefícios e programa da assistência social, e vc destacou essa fala sobre o dia 08 de março o dia dia Internacional da mulher ,muito bem colocado pra mim vc foi uma referência dentro do serviço social foi muito válido e gratificante pra mim é também pra nos capacitar de uma maneira espetacular ,para levar o serviço social a quem dele necessitar..muito obrigado pelo seu apoio fez de maneira incrível pra acrescentar diante do SUAS.

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  2. No ano passado fizemos uma homenagem para mulheres que fizeram/fazem a diferença no território e foi emocionante! Selecionamos mulheres que lutaram para que o espaço de ocupação em que atuo se tornasse um bairro, que cuidaram da população, que fazem parte de grupos sociais, pastorais, células, enfim! Foi uma das ações que realizamos na semana da mulher….Vale a pena propor coisas diferentes!

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